14º LIVRO DO ANO

"PRESOS QUE MENSTRUAM - A BRUTAL VIDA DAS MULHERES - TRATADAS COMO HOMENS - NAS PRISÕES BRASILEIRAS", NANA QUEIROZ



Quando se fala do sistema prisional brasileiro, já de cara existe uma dicotomia que choca-se com a nossa mentalidade social. Parte-se do princípio que o indivíduo encarcerado está ali cumprindo uma pena de ressocialização, ou seja, o Estado, representado na figura da Secretaria de Segurança Pública, recebe a tarefa de  privar da liberdade esse infrator(a) mas "devolvê-lo" apto a interagir novamente com a sociedade, contribuindo para seu desenvolvimento. Pois bem, vamos a realidade: presídios superlotados, corrupção correndo solta em todos os âmbitos, descontrole total. Fora isso, há uma mentalidade vigente que promulga que o preso está sendo punido - e por isso deve ser tratado da pior maneira possível. É comum ver a revolta quando se pensa que são os meus - os seus, os nossos - impostos que estão pagando a estadia desse ser humano que come, dorme e não faz nada de produtivo para compensar seu erro - que muitas vezes implica na morte de um trabalhador. Não estou aqui, de maneira alguma, levantando essa ou aquela bandeira - estou analisando uma situação. Que é necessário se pensar em alguma maneira de reverter esse quadro dramático, isso é indiscutível: se os parentes do preso devem custear suas estadia, se ele deve trabalhar lá dentro com empresas dispostas a terem "filiais" na cadeia, se o acompanhamento do detento após solto deve ser de apoio psicológico- financeiro... não sei, ideias são muitas. Mas e a sociedade, será que muda? Será que o Estado está de fato ressocializando esse individuo ou apenas mantendo o "problema" encarcerado e devolvendo - "melhor e aprimorado" de maneira bem negativa, uma vez que as prisões são verdadeiras escolas do crime - posteriormente?

E, diante desse problema gigantesco para ser resolvido, ainda tem outro: o sistema prisional brasileiro é totalmente pensado para HOMENS. Sim: espaços, produtos de higiene e limpeza, legislação , TUDO pensado para um público masculino.

Antes que você se revolte e diga "nossa, só falta, agora vamos dar boa vida para meliantes" volto a frisar: ressocialização implica dignidade. É uma questão de rever todo um código penal ultrapassado, toda uma cultura de tratar "preso" de qualquer jeito, toda a visão de uma sociedade - na qual o próprio preso está inserido e foi sim formado por ela - que tem que rever alguns conceitos que estão se voltando contra a própria sociedade. E no caso das "presas" a situação fica ainda mais desumana...

Faça como eu, desligue um pouco a tecla do seu preconceito  (ou PRÉ- conceito ) e faça uma breve e rasa análise da situação. As mulheres que estão presas precisam de mais papel higiênico do que os homens, precisam de absorvente higiênico, precisam de um banheiro dentro da cela que não se limite a um buraco no chão - nossa anatomia é diferente. Isso apenas começando a analisar o caso. A tal "visita íntima", regulamentada para os homens, é extremamente limitada e burocrática para as mulheres - tem que provar união estável com o parceiro, isso quando o tal parceiro aceita se submeter a revista íntima e manter uma relação afetiva que implica ter a mulher presa... Pior, em geral o parceiro também é do crime e logo arruma outra mulher na rua ou vai preso. Fora a questão da gravidez - uma detenta que engravide dentro da cadeia é responsabilidade do estado... Viu como é complexo?

"Em geral, cada mulher recebe por mês dois papeis higiênicos (o que pode ser suficiente para um homem, mas jamais para uma mulher, que o usa para duas necessidades distintas), e dois pacotes com oito absorventes cada. Ou seja, uma mulher com um período menstrual de quatro dias tem que se virar com dois absorventes ao dia; uma mulher com um período de cinco, com menos que isso."

No livro "Presos que menstruam" a jornalista Nana Queiroz traz um panorama do que é a vida as presas no Brasil. A mulher é diminuída desde o momento em que vai presa, pelo policial que está fazendo a apreensão - agredida, maltratada, xingada... E a maior parte dos delitos envolvem tráfico de entorpecentes e em seguida crimes contra o patrimônio (assaltos e furtos). Boa parte delas estão presas porque "ajudavam" o companheiro - que, em geral, some assim que ela vai presa. A  mulher também perde muitas vezes o contato com os filhos, já que ou estão com parentes distantes ou em abrigos. A  grávida precisa de assistência médica durante a gestação - para ela e para o bebê - coisa que na maior parte das vezes não acontece... Ouvindo diversos relatos, indo visitar para "sentir na pele", Nana nos conduz por um universo peculiar, cheio de nuances próprias, onde há uma legislação conhecida por todos que estão ali e aprendida rapidamente por aqueles que estão chegando. E chegando de todos os lugares e classes sociais.

"Só em 28 de maio de 2009, o então presidente Luiz Inácio Lula d Silva sancionou a Lei 11.942, que assegurava às presidiárias o direito de um período de amamentação de no mínimo seis meses e cuidados médicos aos bebes e a elas".


A detenta brasileira leva sua pena sozinha, tem que aprender a se virar dentro da cadeia. 

Li esse livro em meu Kindle (está disponível no Kindle Unlimited) em apenas um dia. São tantas coisas que passam por sua cabeça ao lê-lo... Lógico, a jornalista traz a visão das presidiárias, ninguém diz que o que elas dizem seja 100% verdade - aliás, a possibilidade de sê-lo é bem remota... 

"As histórias que ouviu, foram as que elas quiseram te contar. Histórias em que elas acreditam porque repetiram muitas vezes visando a liberdade. Ou seja: são ficções. O pior ser humano dentro da cadeia se considera vítima, injustiçado."

Um adendo: há  um capítulo sobre Suzanne Von Richtoffen muito, mas muito interessante. Como essa garota é a personificação do psicopata... Fiquei chocada! 

O livro é uma excelente maneira de mostrar quantas mudanças são necessárias para que possamos chegar a um sistema justo, que não privilegie o detento, mas que tenha uma validade para além do tempo em que ele estará lá.  Li em um dia porque é impossível largá-lo. E, como eu sempre digo, livro bom é aquele que traz ideias para você refletir sobre elas, que acrescenta possibilidades...


Espero que você sinta vontade de ler esse livro e pensar sobre o que ele diz. Vale muuito, muito a pena!

BOA LEITURA! 📚

"Em nossa sociedade, ela [Simone de Beauvoir] afirmou, cada mulher está acostumada a enxergar a outra como rival pela atenção e o amor masculinos. Já o homem costuma buscar o outro como cúmplice de suas conquistas, para validar sua masculinidade ao ir em prostíbulos, bares ou boates. Criar  as mulheres para competição  seria uma estratégia da sociedade machista para dividi-las e mantê-las submissas. Nessas bases, desenvolveriam-se as relações. Na cadeia, elas apenas seriam turbinadas pela tensão."

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