16º LIVRO DO ANO #12LIVROSPARA2017

"CRIME E CASTIGO", FIODOR DOSTOIÉVSKI



Um clássico é um clássico por ser  atemporal, por ser bem escrito e ter, mesmo depois de muitos anos passados, a capacidade de "conversar" com seu leitor. Por ter temas atuais, ainda que tenha sido escrito em outro século. Que possa emocionar com seu enredo e prender sua atenção, mesmo com um estilo de escrita que talvez não seja o mais confortável de se ler. Um clássico tira você da zona de conforto - e você agradece por isso.

Qualquer coisa que eu fale aqui sobre "Crime e Castigo" será "chover no molhado". Você, provavelmente, já ouviu falar ou até mesmo já leu esse livro. Já soube que é fantástico, que mexe com suas emoções, te leva por um caminho dentro de uma cabeça complicada... Dostoiévski tem uma escrita muito peculiar. É prolixa, mas ao mesmo tempo é fácil de acompanhar. Especialmente quando você compreende de que nada do que está escrito ali está à toa. Nada. Um nome, um acontecimento que parece banal, dito por um personagem talvez até secundário será muito importante em outro momento. Confesso que eu até me peguei pensando "é isso mesmo? estão falando daquele fulano que apareceu numa conversa lá no comecinho do livro???" E sim, é isso mesmo! Ou seja, exige sim do leitor atenção e dedicação um pouco além do usual. 

"O discurso dostoiévskiano nem sempre prima pela fluência, pela elegância; sua constituição depende do clima social e psicológico em que se desenvolve a narração, da tensão psicológica que envolve as vozes das personagens, do grau de empatia entre o narrador e as personagens."

Paulo Bezerra, tradutor

Então, se você assim como eu demorou para criar coragem e ler essa obra, aqui vai uma breve e raso resumo de seu enredo: Rodion Románovitch Raskólnikov é um jovem estudante de direito que, por falta de dinheiro, é obrigado a abandonar a faculdade e passa a viver de pequenos serviços, "bicos" como tradutor e, em muitos momentos, depender do parco ordenado da mãe viúva. Por isso, ele passa a pegar dinheiro com uma velha, uma espécie de agiota, que penhora bens valiosos e vive de seus juros, decisão tomada por Raskólnikov para poder ter um pouco a mais de dinheiro. Obviamente, nesse ínterim vamos conhecer também a irmã de Raskólnikov que está pensando em se casar por dinheiro com um homem ardiloso depois de passar humilhação trabalhando em casa de família e sofrendo assédio sexual por conta da situação financeira. Com isso, a vida e especialmente o aspecto psicológico de Raskólnikov não estão nada bons, coisa perceptível logo no início do livro... Não é loucura, entenda, mas sim um estado constante de perturbação. Com o conhecimento que adquiriu e com a situação que está vivendo, ele analisa a realidade sob o seguinte aspecto: está frustrado, morando num cubículo, devendo aluguel, andando maltrapilho, sente-se explorado pela velha agiota, já que ela recebe muito dinheiro e quase não oferece nada em troca... E pensa da seguinte forma: César e Napoleão mataram milhares para construir um império ou mesmo a sociedade conforme a conhecemos. Napoleão, inclusive, é admirado e reconhecido como um grande estrategista, um homem muito inteligente. Extraordinário. Por que então ele, Raskólnikov não poderia matar essa velha que não passa de um "piolho", sequer pode ser considerada humana e libertar-se ao mesmo tempo que "liberta" a sociedade desse problema? Ele passa a ver a possibilidade desse crime como uma espécie de libertação, evolução até, pois ele poderá subir ao patamar dos homens extraordinários, acima do comum. A ideia o persegue, sempre ali em sua mente, meio que sendo planejada, meio que sendo esquecida.

E acaba por matar a velha. Não só ela, mas também a irmã dela numa daquelas situações de "hora errada, lugar errado", ou seja, uma vítima circunstancial. Duplo homicídio.

A partir daí, Raskólnikov passa a conviver com a culpa ao mesmo tempo em que sequer cogita entregar-se, já que não acha que cometeu crime algum... Sente-se perseguido,  adoece, passa por apuros e parece sempre estar perturbado, sempre "devendo" alguma coisa, como realmente está, mas também não consegue reconhecer-se culpado apesar de toda a perturbação. Ele vê de perto a investigação, já que tem alguns conhecidos na delegacia e sabe quem está sendo interrogado e quando e porque... Mas não faz nada para impedir que outras pessoas sofram as consequências de seu crime. É um personagem complicado, porque ao mesmo tempo que é impulsivo, agressivo com as palavras, ele é bondoso, capaz de tirar do seu próprio parco orçamento para ajudar um desconhecido. Humano demais esse Raskólnikov... Estranho demais esse Raskólnikov...

Como é comum na literatura russa, a história é permeada de vários outros personagens em tramas e subtramas que não estão ali por acaso - todas colaboram para o desenvolvimento da trama principal. Como eu já disse, tudo o que estiver escrito será em algum momento útil. Não é um livro fácil de ler, especialmente porque a narrativa coloca você na cabeça do protagonista o tempo todo - e já deu pra perceber que não é nada fácil estra na cabeça desse cara. Ele é confuso, perturbado, inteligente. Suas divagações podem durar páginas inteiras e, por isso, não é um livro leve, divertido. Aliás, é um livro que exige certa convicção em concluí-lo. Não estou dizendo com isso que seja ruim, pelo contrário. Mas não é uma leitura suave.

Mais uma vez (como em "Os irmãos Karamazov") o autor mescla em alguns momentos suas próprias experiências com a ficção e "empresta" sua vida ao personagem do romance. Como eu disse, não me comprometo a fazer uma resenha densa, porque senão seria um resumo comentado e não é essa minha intenção. Mas "Crime e Castigo" é o tipo de livro que te desafia e leva para lugares bem obscuros da mente do protagonista e te fazem pensar sobre muitas coisas, em especial sobre o ser humano e todas as suas nuances psicológicas, que não são poucas... Mas é um texto que dá sim para acompanhar. O que é difícil é o estado emocional do personagem, não a escrita - nada muito rebuscada, apesar de ser de 1866. Vale a pena o esforço!

BOA LEITURA! 📚📚📚


"Toda questão consiste em que, no artigo dele, todos os indivíduos se dividiram em 'ordinários' e 'extraordinários'. Os ordinários devem viver na obediência e não têm o direito de infringir a lei porque eles, vejam só, são ordinários. Já os extraordinários têm o direito de cometer toda a sorte de crimes e infringir a lei de todas as maneiras precisamente porque são extraordinários."
(pág. 268)




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