17º LIVRO DO ANO

"ANARQUISTAS, GRAÇAS A DEUS", ZÉLIA GATTAI



Delícia de leitura, não tem outra definição! Entrou fácil para a minha lista de livros preferidos da vida!

 O livro de estreia de Zélia Gattai foi lançado em 1979 e conta em forma de diário mas sem seguir uma ordem cronológica rígida as memórias da infância e início da adolescência da autora. 

Zélia, descendente de italianos, viveu com a família na Alameda Santos, num casarão situado no número 8. Casarão alugado, já que seu Ernesto, o patriarca, não acreditava em propriedade - era anarquista, assim como sua esposa, dona Angelina, mulher bonita e que se esforçava para manter a ordem numa casa cheia de filhos e filhas, parentes e amigos. O casarão tinha uma espécie de barracão anexado no qual seu Ernesto deu início a sua oficina mecânica que cuidava de alguns dos poucos automóveis que transitavam pela cidade de São Paulo.

A casa número 8 da Alameda Santos. Fonte:http://casashistoricaspaulistanas.blogspot.com.br/2010/10/alameda-santos-numero-8-zelia-gattai.html

Hoje, como se sabe, a região da avenida Paulista é altamente valorizada. Quitinetes são alugados a preços exorbitantes, imagine o preço do aluguel de um casarão - se é que ainda existisse... Naquele tempo, começo do século XX, a avenida que é o símbolo de São Paulo já era habitada por famílias ricas, os barões do café. A vizinha Alameda Santos era a "prima pobre": os imigrantes a habitavam e por ela é que passavam os vendedores - de leite, de pão - arrastando suas carrocinhas puxadas a burro. 

O livro dá uma aula de história de forma muito despretensiosa, sem nenhum tipo de didatismo. É aquele tipo de aprendizagem que fica, porque acontece de maneira espontânea: você se sente conversando com Zélia, ouvind sas histórias. A família Gattai chegou a uma São Paulo inimaginável para nossos dias. Família de letras, de pessoas que gostavam de ler e discutir política e os acontecimentos noticiados no jornal O Estado de São Paulo, mas que também tinham em seu cotidiano os acontecimentos da vizinhança: crianças nascendo, namoricos escondidos, discussões mais engraçadas do que violentas... Dona Angelina, a matriarca, tinha parentes no Brás (outro reduto de imigrantes) e em São Caetano, que era praticamente uma cidade do interior que, para ser acessada, precisava de uma viagem longa que incluía bonde e trem! O dito parente, seu irmão, morava num sítio... Já para ir para o Brás era necessário pegar o bonde e descer no centro da cidade, na XV de novembro e de lá pegar outro transporte até o Brás. Eu, apaixonada por história e ciente de que nasci na época errada apenas fui me deliciando com cada página, com cada acontecimento ... e fui dividindo tudo com todos a minha volta! Precisava compartilhar essa São Paulo que me encanta e que não conheci. 

O pai de Zélia era um apaixonado por automóveis, chegou a abrir uma  loja, a Sociedade Anônima Gattai para importar da Itália os primeiros Alfa-Romeos que transitaram por aqui. Aliás, sua loja ficava na rua Xavier de Toledo, em frente à Light and Power. 

Edíficio Alexandre Mackenzie, Sede da Light and Power (fonte: http://historiadesaopaulo.blogspot.com.br/2011/03/em-1889-sao-paulo-ganhava-iluminacao.html)

Maravilhoso! 

Ernesto chegou a ser perseguido com o advento do estado novo, como anarquista e comunista e chegou a cogitar-se sua expulsão do país, o que por fim não aconteceu.

Minha vontade é te contar, caro leitor, o livro inteiro e inspirar em você a vontade e a paixão de lê-lo. Se você gosta de História e de histórias, não perca seu tempo: leia "Anarquistas, graças a Deus". Se você gosta de São Paulo, essa cidade que tem meu coração, leia-o também. Leia e vamos conversar sobre essa coisa fantástica que é olhar para um lugar quando ele ainda está começando. 

O final do livro me emocionou, como todo ciclo que se encerra. Acompanhamos a criança Zélia tornar-se uma moça e a cidade em seu entorno também ir se transformando. 

Só a literatura pode proporcionar momentos como esse, de puro prazer e de  saudades de algo que não se viveu.

(Essa leitura foi dica da minha mentora literária e dona da p#$%@ toda Tatiana Feltrin, sempre no meu coração 💖)

BOA, EXCELENTE, MARAVILHOSA LEITURA!!! 📚

"A Alameda Santos, vizinha pobre da Paulista, herdava tudo aquilo que pudesse comprometer o conforto e o status dos habitantes da outra, da vizinha famosa. Os enterros, salvo raras exceções, jamais passavam pela avenida Paulista. (...) Rodas de carroça e patas de burros jamais tocaram no bem cuidado calçamento da paulista. Tudo pela Alameda Santos! Nem as carrocinhas da entrega do pão, nem os burros da entrega do leite, com seus enormes latões pendurados em cangalhas, um de cada lado, passando pela manhã muito cedo, tinham permissão de transitar pela avenida." (pág. 53)

"O Bexiga, amplo e populoso, era igualmente pitoresco. Seus habitantes, como os da [rua] Caetano Pinto [no Brás], conservavam seus costumes e faziam suas leis. Moradores de outros bairros dificilmente frequentavam o Bexiga, considerado um reduto de gente atrasada, perigosa , de sangue esquentado. Provavelmente havia um certo exagero no julgamento." (pág.103)

"O itinerário escolhido por dona Angelina era sempre o mesmo: tomava o bonde na esquina da avenida Paulista com Consolação, saltava na Praça do Patriarca. Por duzentos réis, podia-se ir de casa até a rua Quinze de Novembro, onde havia conexão para o Brás. Mamãe não aproveitava o percurso todo a que tinha direito, preferia saltar antes. Atravessava a rua Direita inteirinha , a pé, vendo vitrinas. (...) Começava pelo Mappin Store, na Praça do Patriarca, depois vinha a casa Alemã, depois a casa da Lebre e depois de muitas outras lojas bonitas chegava a nossa preferida: a Loja Ceylão."
(pág.132)

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