19º LIVRO DO ANO

"O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO", JOSÉ SARAMAGO



“O Evangelho segundo Jesus Cristo” é, sem sombra de dúvida, um dos melhores livros que eu já li em minha vida. Não sou religiosa, apesar de ter crescido em um lar religioso/cristão. Hoje me definiria como agnóstica com forte tendência ateísta. Mas também acredito que seja um processo tornar-se ateu. Sim, porque nosso mundo é religioso, nossa sociedade o é e, claro, nossa mente já nasce programada a acreditar em algo. Mas, a história de Jesus, um homem/deus/filósofo ou seja lá como você vê essa figura história, é do mundo, não de uma religião. Cabe a você, caro leitor, saber como o enxerga. Particularmente, acredito que tenha existido sim um filósofo revolucionário que marcou sua época por se opor ao que todos achavam ser o normal. E Saramago, este português ateu, nos traz a história de Jesus desde o seu nascimento até a morte. E o meio desse caminho é a uma das coisas mais fantásticas que eu já li na minha vida. Sinto-me privilegiada por viver em uma época em que um livro como esse possa ser escrito, publicado e estar em amplo alcance do público. Genial. Como vi a Isabella Lubrano em seu canal "Ler antes de morrer"  quando falou deste livro, em outros tempos seríamos queimados todos: o livro, o autor e seus leitores....

Porém, não se iluda. A escrita é muito peculiar e pode causar certa estranheza logo de cara. Explico: a narrativa é divida em grandes parágrafos que às vezes tomam páginas e páginas e as únicas pontuações utilizadas são o ponto final e as vírgulas. Os diálogos são escritos separados apenas por vírgulas e letras maiúsculas. E o português (no caso desta edição da Companhia das Letras, pelo menos) é o de Portugal. Apenas para deixar tudo com um sabor de desafio. A princípio, é um pouco complicado, exige um pouco mais de você, leitor incauto. Mas depois que você se acostuma, é uma leitura fluida, apesar de sua densidade.

Todo o livro é assim: grandes parágrafos, sem divisões as quais estamos habituados.



 Tentei destacar um exemplo de como os diálogos aparecem no texto.


A história que conhecemos de Jesus, que na Bíblia Sagrada é reconhecido como o Cristo, filho de Deus, é recontada por Saramago de uma maneira muito próxima do que poderia ser chamado de plausível, crível, sem muitas passagens miraculosas. Há sim anjos e alguns acontecimentos inexplicáveis que não foram excluídos- afinal, é um reconto, elementos essenciais que tornam essa história marcante como o é foram mantidos. Saramago é conhecido por sua ironia e sarcasmo e essas marcas estão colocados no texto permeando toda a história. É uma interpretação pragmática do que nos acostumamos a ver retratado apenas como dogma, como religiosidade.

Abordando os principais temas do evangelho bíblico – concepção, nascimento, vida, crucificação – Saramago nos traz uma interpretação de um Jesus muito humano, muito mais homem do que Deus e que te faz pensar: eu faria isso também! É fácil enxergar esse Jesus aqui descrito - um homem, criado em uma religião, mas que tem uma vida comum apesar de ser muito inteligente e observador. Uma pessoa.

A figura de Jesus tal qual conhecemos é idealizada obviamente para torná-lo um deus – o filho de Deus. Um Jesus muito mais próximo do céu do que da Terra, por assim dizer. O Jesus de Saramago é um homem que se vê envolvido num plano divino sem ter certeza do que é e se realmente quer ter parte nisso. Ou se isso é possível mesmo. Ou se é um ardil diabólico para fazê-lo pecar. Ele tem dúvidas.

Já próximo ao fim do livro há um diálogo entre Deus e Jesus, assistido pelo Diabo, que faz alusão aos supostos 40 dias que Jesus esteve no deserto - passagem essa citada na Bíblia Cristã. Aqui, no caso, tal diálogo se dá num barco pesqueiro em meio a um nevoeiro. Esse diálogo é uma das coisas mais incríveis que eu já li na minha vida! É fantástico ver Deus ser inquirido por seu “filho”, este querendo saber o porquê das coisas se darem como os planos de Deus pretendem, quais são os objetivos, o que mudará se acontecer como diz Deus. É uma coisa inteligente, sensível, humana... Eu fiquei impressionada com a capacidade de Saramago de colocar uma ironia tão fina e ao mesmo tempo ser tão sensível em suas colocações.

Óbvio que o autor tem um profundo conhecimento da bíblia cristã e faz citações a passagens dela todo o tempo. Não há chacota ou desrespeito, só uma forma mais crível de se contar uma história já tão conhecida e modificada de acordo com as convenções de cada época.

Minha recomendação é: leia. Leia sim, independentemente de sua religião ou crença. Uma história não vai abalar sua fé. E se abalar, o problema não está na história...

BOA LEITURA!!! (BOA, MAS BOA MESSSSMO!!!)📚


"(...) E qual foi o papel que me destinaste no teu plano, O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o que de melhor há para espalhar uma crença e afervoar uma fé."
(pág. 368)


"(...) Uma árvore geme se a cortam, um cão gane se lhe batem, um homem cresce se o ofendem."
(pág. 322)



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