20º LIVRO DO ANO

"O ACERTO DE CONTAS DE UMA MÃE - a VIDA APÓS A TRAGÉDIA DE COLUMBINE", SUE KLEBOLD



Era 20 de abril de 1999 quando na pequena Littletown, Colorado, aos pés das montanhas rochosas, dois jovens invadiram a escola de ensino médio de Columbine e, no ataque que ficou conhecido como o pior ocorrido dentro de uma escola até então, eles assassinaram friamente 12 estudantes, um professor e feriram outros 24 estudantes, alguns com sequelas em definitivo. E então, se mataram. A intenção, no entanto, conforme se soube mais tarde, era muito mais ampla: havia bombas no refeitório programadas para explodir no auge da lotação – era hora de almoço, o lugar ficaria cheio em pouco tempo - além de bombas com os próprios atiradores, armas de grosso calibre e um ódio descabido e aparentemente sem uma razão muito clara. Nos vídeos encontrados posteriormente, os garotos – Eric Harris e Dylan Klebold, ambos com 17 anos – deixam mensagens de ódio e juras de vingança contra “tudo o que eles passaram” nos últimos anos no colégio. Tudo? Tudo o que? Aquela manhã marcou não apenas os EUA mas todo o mundo e a sociedade de maneira geral se perguntava: o que justificaria tamanha raiva? Jogos violentos de vídeo game? Filmes com violência explícita? Músicas depressivas e com letras exalando um rancor descabido contra o mundo? Descaso dos pais? Negligência escolar? O que poderia explicar uma comunidade tão pacata ser vítima de tamanha vingança?

Essa é uma pergunta que até hoje não tem uma resposta muito clara. Ou melhor, tem muitas respostas, dependendo com quem você converse. “Falta Deus nas escolas e nas vidas de nossos jovens”, dizem os religiosos. “Os pais devem ser mais atentos e participativos na vida de seus filhos”, os estudiosos de comportamento podem dizer. Mas será tão simples assim entender o que leva gente tão jovem e com tanta coisa para viver ainda, meninos que tinham aparentemente – afinal, ninguém sabe o que acontece dentro da casa dos outros – vidas estruturadas, a típica família americana de comédia romântica de repente decidirem que não bastava, que não era o suficiente. Que morrer era melhor. Que matar era uma opção, uma marca.

O livro “O acerto de contas de uma mãe – A vida após a tragédia de Columbine” foi escrito por Sue Klebold, mãe de Dylan. Até onde se sabe, os pais de Eric nunca se manifestaram a respeito do ocorrido. Sue tenta explicar como ela vivenciou todos os acontecimentos desencadeados após os primeiros tiros dados pelos rapazes naquele dia. Chamou-me a atenção justamente por trazer uma visão de alguém que, apesar de estar de fora da ação, acompanhou-a muito de perto. E é terrivelmente emocionante.

É chocante imaginar o que essa mãe viveu – e ainda vive. Como justificar? Como entender? Sue e seu marido Tom também tinham – tem – um filho mais velho, Byron. E todos eles são também vítimas de Columbine. Afinal, eles ficaram para as maiores explicações.

É interessante a leitura porque ela não foge da primeira questão que talvez nos ocorra: como eles não sabiam? Como eles tinham um filho tão emocionalmente/ mentalmente perturbado e não desconfiavam de nada? Como esse (s) garoto (s) conseguiu montar um arsenal tão destrutivo sem que eles, Sue e Tom desconfiassem de nada?

Sue foi buscar as respostas após se refazer do choque, se adaptar a vida que então se apresentava, encarar processos e ataques constantes. Conversou com especialistas, tentou entender os escritos do filho em seus diários, muitas vezes confusos. E tentou, por diversas vezes, conectar a imagem que ela tinha de Dylan a imagem do assassino cruel que ela viu nos vídeos mostrados pela polícia, um rapaz de 1,93 m de altura que atirava de forma aleatória nas pessoas que fugiam ou se escondiam apavoradas.

Ela conseguiu algumas respostas que talvez explicassem. Que Dylan sofria de depressão. Que a depressão nos adolescentes pode ser confundida com os sintomas comuns dessa fase: irritabilidade, isolamento. Que Dylan sofria/sofreu bullying por anos e a escola não tinha qualquer política de combate a esse tipo de comportamento – mas também nunca se queixou em casa, o que parece ser muito comum entre os jovens. Que adolescentes são peritos na arte de dissimular, de mudar o foco de si mesmos quando querem - por exemplo, ela cita que três dias antes de ir para a escola matar colegas que estiveram ao seu lado por quatro anos, Dylan foi ao baile de formatura acompanhado por uma amiga.

É uma leitura densa, sofrida, porque mesmo a autora escrevendo de uma maneira muito fluida, sem quaisquer tipo de linguagem rebuscada, você consegue visualizar cada terror que ela passou. Qual mãe quer gerar um monstro? Ela precisou aprender a conviver com acusações que ela julga serem injustas – afinal, ela era uma mãe presente e participativa na vida dos filhos, o pai também cumpria muito bem o seu papel. Mas, ainda assim, aconteceu Columbine. É de dar medo, mesmo sabendo que tudo o que ela narra pode não ser exatamente da maneira que contada. Afinal, é a versão dela. Mas, vamos supor que sim, que Sue esteja  sendo sincera em cada palavra ali escrita. Imagine a dor dos pais que perderam seus filhos nesse massacre. Imagine, agora, ser os pais de quem causou tamanha dor... Muito pior, não é mesmo?

Vou expor uma impressão que tive sobre o texto: Sue tenta, de alguma forma entender porque o filho fez isso. Ela sabe que é muito difícil, de modo geral, ter alguma empatia por ele – afinal, mesmo que fosse doente, tudo são apenas conjecturas, essa é uma certeza que jamais teremos. Ela lamenta pelas vítimas, ela fala em vários momentos que daria sua vida para salvar as vidas perdidas naquele dia. Mas ela tenta, não sei se consciente ou inconscientemente, enxergar Dylan como um doente que não buscou ajuda e acabou, de alguma maneira, submisso a Eric – esse sim, conforme as investigações comprovaram um jovem com um transtorno de personalidade preocupante, beirando a psicopatia. Então, ao mesmo tempo em que ela entende, ela parece não aceitar. Compreensível por ser mãe, mas ainda assim complexo. Será que os pais das vítimas conseguem ver isso ou só conseguem enxergar o assassino que Dylan se tornou?

Mais ao fim do livro, Sue Klebold vai expondo estatísticas e estudos sobre o comportamento adolescente com depressão ou com tendências suicidas; o que ela fez para se reerguer e voltar a viver mais próximo da normalidade. 

Escrevo  numa época em que o Brasil – que é o 8º em número de suicídios e teve também um ataque a uma escola no Rio de Janeiro em 2011, onde morreram 12 pessoas e 22 ficaram feridas e culminou com o suicídio do atirador – está em polvorosa com uma série da Netflix chamada de “13 reasons why” que aborda o bullying e o suicídio de jovens. Há também muita discussão sobre um “jogo” chamado “Baleia Azul”, que consiste em se cumprir uma série de desafios e termina com o maior de todos: o suicídio. E as pessoas estão novamente se perguntando se estamos fazendo algo por nossos jovens, o que está acontecendo com a sociedade, porque eles podem ser tão cruéis uns com os outros e tão receosos em pedir ajuda.

Columbine ainda não acabou.

Se quiser saber um pouco mais, hoje em dia há vários documentários sobre a tragédia disponíveis on line. Recomendo fortemente o “Tiros em Columbine”, do Michael Moore (“Bowling for Columbine", 2002) que está dublado nesse link aqui do Youtube. Há também esse programa aqui do Discovery Channel. Sugiro ainda que, ao terminar de ler o livro você assista ao documentário ou a outro material que traga algumas filmagens daquele dia e veja como existem  duas imagens tão opostas de Dylan. 

BOA LEITURA!📚



"Não há, talvez, verdade mais dura para um pai ou uma mãe aceitar, mas nenhum pai ou mãe neste mundo sabe melhor do que eu: o amor não é suficiente." 
(pág. 20)


"Assim como o retrato de Dorian Gray, a

imagem que eu tinha de Dylan em minha

mente ficava mais feia a cada vez que eu

olhava para ela." 

(pág152)

"Em um ato que respeito profundamente, o

 romancista Stephen King pediu a seu editor para 

retirar o romance Fúria das livrarias, depois que

 vários atiradores de escola mencionaram alguns

 trechos dele."

(Pág. 148)






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