23º LIVRO DO ANO

“O apanhador no campo de centeio”, J. D. Salinger


“O apanhador no campo de centeio” foi editado pela primeira vez em formato de livro em 1951, nos Estados Unidos. Anteriormente, já havia sido publicado em forma de revista. Logo tornou-se um dos livros mais lidos do país. Mesmo tendo sido escrito como um livro para adultos, tornou-se mais popular entre o público jovem por tratar de problemas típicos da juventude ou de mais fácil identificação com esse público: problemas na escola, cobranças dos pais, a expectativa e o medo de entrar no mundo adulto... O livro é considerado um clássico moderno.

Uma coisa que chama muito a atenção sobre esse livro é que ele também ficou conhecido por ser citado como o favorito de alguns assassinos, como por exemplo Mark David Chapman, o assassino de John Lennon  dizem que Mark cogitava mudar seu nome para Holden Caulfield, o protagonista, já que ele era o próprio e que depois de atirar contra Lennon ele tirou o livro do bolso, sentou na calçada e começou a lê-lo. Outro que citou o livro como o seu favorito foi o atirador que tentou matar Ronald Reagan e o cara que assassinou a atriz Rebecca Schaeffer carregava consigo um exemplar. 

Aparentemente a história tem alguns gatilhos que poderiam ser acionados em algumas mentes mais suscetíveis...

Era basicamente esse o conhecimento que eu tinha sobre o livro, além de um filme antigo que eu assisti no qual os protagonistas eram o Mel Gibson e Julia Roberts (“Teoria da Conspiração”, 1997) que o livro também aparece coo parte da vida de um cara meio pirado.  Eu esperava uma leitura densa, pesada, com cenas de dor e morte ou algo muito sombrio...

Não.

O livro narra em forma de fluxo de pensamento um final de semana na vida de Holden Caulfield. Ele é um garoto de dezesseis anos, filho de uma família bem estruturada financeiramente. O pai advogado, a mãe dona de casa, tiveram quatro filhos, sendo D. B. o mais velho, que já está em Hollywood escrevendo roteiros, Holden Caulfield que é o nosso protagonista, Allie, que morreu ainda criança vítima de leucemia e Phoebe, a caçula.

A narrativa é o espaço de tempo entre a tarde/noite de um sábado até a tarde de segunda-feira. A história tem início com Holden expulso do colégio interno que estuda por não ter atingido as notas necessárias em todas as matérias – e é a terceira vez que isso acontece nos últimos anos...

Estamos todo o tempo dentro da cabeça de Holden e vamos acompanhando o que ele está sentindo em relação a mais essa mudança em sua vida. É sábado, Holden pode ir embora apenas na quarta-feira, que é quando supostamente seus pais já terão sido avisados sobre sua expulsão e virão buscá-lo para o Natal. Porém, na madrugada de sábado para domingo, após acontecimentos em que temos oportunidade de conhecer alguns companheiros” de Holden no colégio, ele decide ir embora. Simples assim. Decide que não pode mais ficar ali naquele lugar e que vai ficar num hotel até quarta-feira adiando assim o confronto com seus pais.

A partir daí, passamos a acompanhar a empreitada do garoto. Ele vive um final de semana de aventuras em plena Nova Iorque, à mercê de muitos perigos. Mas, como a maior parte dos jovens, ele também acha que vai se safar, que conseguirá dar jeito em tudo. Obviamente nem tudo sai como o esperado, já que estamos falando de Nova Iorque. A minha primeira impressão é de que estava acompanhando a vida de um adolescente típico: reclamando e criticando tudo e todos todo o tempo, achando que sabe muito, que pode enganar a todos. Tudo é chato, todos são sacanas e falsos. Mas, de um jeito que apenas os grandes escritores conseguem fazer, eu vi que não era só isso. E, como que analisando um adolescente mesmo, você vai pegando aqui e ali uma coisinha que ele conta (lembra, quase sempre na verdade – Holden é muito solitário, as coisas acontecem muito mais dentro de sua cabeça do que fora dela), percebi que não era só isso, não era só reclamação de adolescente chato.

Holden começa a citar momentos que o marcaram profundamente nesse seu tão curto período de vida. A morte prematura do irmão, vítima de uma doença que o fez sofrer. O suicídio de um colega na escola, que ele presenciou. Em um determinado momento, ele diz que está acostumado a lidar com vários “sacanas” do tipo de um professor que acaricia sua cabeça... Ou seja, Holden me parece um pouco perturbado emocionalmente, já por ter vivenciado situações que são difíceis de serem digeridas mesmo por um adulto. E eu queria entendê-lo mais, ver se mais alguém conseguiria ter a mesma impressão do que eu ali na história. Holden está muito deprimido e abalado, mas usa a arrogância juvenil para se defender do mundo.

Essa é a minha interpretação de Holden Caulfield, muita gente pensa diferente e eu entendo: compreender uma história muitas vezes depende profundamente daquilo que você viveu, daquilo que você entende por “vida”. Eu não antipatizei com Holden, pelo contrário: achei muito interessante seu modo de ver o mundo.... Solitário, sem buscar ajuda – sem entender muito bem que precisa ser ajudado. Não vou fazer aqui uma defesa aberta do personagem, mas eu gostei muito, muito mesmo dele. Com toda a chatice que ele via no mundo, toda a falsidade que ele alegava enxergar nas pessoas, Holden seguia adiante. Do seu jeito.

Ele só quer ser o apanhador no campo de centeio...



Recomendo a leitura para que você possa conhecer o seu Holden Caulfield. Esse é o meu. E esse é um livrão!



Boa leitura!📚

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