24º LIVRO DO ANO

“SENHOR DAS MOSCAS”, WILLIAM GOLDING



Publicado em 1954, o livro traz a seguinte história: um avião saído da Inglaterra cai em uma ilha deserta. Apenas crianças sobrevivem: um grupo de número incerto. Os mais velhos têm entre 10- 12 anos, os mais novos entre 5-7 anos. Apenas meninos. Numa situação dessa e na esperança de serem resgatados, eles tentam se organizar de maneira a sobreviver, sempre tendo por base a organização social que conhecemos. Os meninos mais velhos serão os que vão protagonizar a história mais constantemente. Eles elegem um chefe – Ralph, que parece ser mais equilibrado, mas que sempre está acompanhado de Porquinho, um garoto gordinho que usa óculos e parece sofrer bullying desde sempre na sua vida. Porquinho é mais racional, intelectual e pensa “como adulto”. Ele passa a ser a voz da consciência de Ralph.

Em contraponto, existe Jack. Aparentemente, ele é um líder de um coral de escola ou algo que o valha. Ele parece ser mais soberbo, mais arrogante por ter o que ele reconhece como "status" anteriormente, liderando o coral. Jack é mais passional, guiado mais pela emoção, mais raivoso.

Ralph tem certeza de um resgate, mas para isso propõe que os meninos mantenham uma fogueira sempre acesa no alto de uma montanha. E essa ideia será um ponto nevrálgico para toda a história, desde a primeira vez em que a ideia da fogueira surgiu.

Apesar de tentarem sobreviver, as coisas não andam muito bem com alimentação escassa, muito medo e a eterna espera do resgate que não chega nunca. Com isso, Jack decide caçar – ele viu porcos na ilha. Reúne um grupo e sai para a caçada. E a primeira vez que ele consegue matar um porco...

A partir daí, Jack começa a ver sua força e importância dentro do grupo e por isso passa a ter mais segurança para contestar com veemência Ralph. Ele é corajoso, ele garante a sobrevivência... E eles acabam discutindo, discordando... E o grupo se divide.

A partir daí a história caminha para uma barbárie, uma crueldade que não parece que você está lendo algo protagonizado por crianças. Isso é muito incômodo.... Você sabe que são crianças, mas ali numa “sociedade” afastada, sem a supervisão de adultos e vivendo no limite, as coisas começam a desandar de tal maneira que é assustador. É um microcosmo que reflete de uma forma muito peculiar o que pode ser da raça humana se um dia não houver maneira de se controlar tudo isso aqui.

É como se o autor (que lutou na segunda Guerra pela Marinha Britânica) quisesse nos mostrar o que de fato é a raça humana: sem lei, sem punição, a vida humana passa a ter um valor contestável, negociado pelo interesse. Em muitos momentos desta leitura eu me peguei impressionada tanto com o acontecimento quanto com o fato de que realmente aquilo era plausível. Talvez o ser humano não seja mesmo tão racional.

O “Senhor das Moscas” que dá nome ao livro é o toque de bizarro, quase sobrenatural – ou não. Simon, um dos mais velhos, observa uma cabeça de porco já consumida pelas moscas e pela putrefação. Os meninos caçadores, a mando de Jack, deixam a cabeça dos porcos que matam para traz, numa espécie de “oferenda”, já que algum menino mais novo tem dito que há um monstro na ilha, que alguns deles já o viram (as crianças estão apavoradas, tem pesadelos e os menores estão tentando administrar seus medos longe da proteção e carinho dos pais). Pois bem, Simon “conversa” com uma grande mosca verde iridescente que está na carcaça e se destaca para ele. E o tal “Senhor das Moscas” passa a conversar com ele...

Simon também será o estopim para a descrição de uma das cenas mais chocantes que eu já li.

Após minha leitura – que já havia sido impactante,  pesquisei sobre a história e vi que muitos a interpretam como uma alegoria sobre a segunda Guerra, já que o autor esteve lá. Na quarta capa do livro mesmo está escrito que “Senhor das Moscas” já foi visto como “uma alegoria, uma parábola, um tratado político e mesmo uma visão do apocalipse”. Como se Jack fosse a Rússia e Ralph, os EUA. Ralph, o líder democrático, Jack, mais tirânico. Enfim, são visões que podem enriquecer sua experiência de leitura. Como exemplo, vou deixar o vídeo da Natasha do canal “Redemunhando” que fez uma análise bem legal sobre a história. Vale a pena conferir.

Gostei muito da leitura porque independentemente de você querer enxergá-la como alegoria ou parábola, é uma história chocante. Principalmente porque é uma história que te faz pensar sobre o que é o ser humano quando está em grupo, quando está sem vigilância. Obviamente, sem generalizar, mas nós temos todos os dias provas de como a barbárie está em nosso sangue, em nosso cotidiano e só mesmo a certeza de que haverá punição é que impede que isso seja o “normal”. Os meninos na ilha tentavam todo o tempo pensar “como adultos”.  E a coisa degringolou terrivelmente...

Vale a pena a leitura, vale a pena a análise. Livro daqueles que ficam martelando em sua cabeça bom tempo depois de lido. Excelente!

Boa Leitura!📚

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