27º LIVRO DO ANO


"O Vermelho e o Negro", Stendhal 


Considerado um dos clássicos essenciais da literatura universal, esta obra foi lançada em 1831. Seu autor, Henry-Marie Beyle, viveu muito de perto para dizer o mínimo - um período histórico na França que sacudiu os pilares da história do mundo como o conhecemos. Nascido em 23 de janeiro de 1783, era o mais velho filho de um casal burguês pai advogado e mãe filha de um abastado médico local.  A mãe faleceu quando Henry estava com sete anos, acontecimento que o marcou profundamente. O pai, sempre distante e ocupado com seus afazeres profissionais, não colaborou muito para que a essa fase complicada na vida de qualquer criança fosse superada pelo pequeno Henry.  Na adolescência, aproximou-se de seu avô materno que tinha uma vasta biblioteca a acolhida perfeita. Em 1799 surgiu a oportunidade de mudar-se para Paris para estudar matemática (e distanciar-se de vez de seu pai), mas não conseguiu realizar a prova por motivo de doença. Então, um primo, secretário de Guerra de Napoleão Bonaparte, o convidou a participar do exército, onde foi alçando postos cada vez mais altos. Passada essa época, quando o exército napoleônico precisou se retirar dos territórios ocupados e teve início a restauração monárquica, Henry fugiu para a Itália, onde começou a produzir seus primeiros textos, escapando do tédio de uma vida “normal” após participar tão ativamente da construção da história da França.


Pode não parecer, mas até aqui falei apenas sobre a vida de Stendhal, o pseudônimo escolhido por Henry entre os mais de 200 que utilizava para escrever suas histórias. Ou seja, só a  história da vida do autor já daria uma belíssimo livro...

Porém...

“O vermelho e o negro” (essa edição que ilustra o post é da Tag- Experiências Literárias junto com a editora Dublinense, enviada para os associados em Julho/2016) é considerado o primeiro romance realista, com um profundo viés psicológico. A descrição dos ambientes e paisagens são secundárias: Stendhal investe nas emoções dos personagens, especialmente o protagonista Julien Sorel.

Julien Sorel é um jovem nascido em uma pequena cidade (fictícia) no interior da França. Seu pai é um carpinteiro, ou seja, eles são uma família pequeno-burguesa. Julien, porém, por preferir os livros é constantemente agredido e discriminado pelos irmãos e pai. Ele possuía apenas três livros: a Bíblia, “Memorial de Santa Helena” e “As confissões”. Num momento de total estagnação social, se você não tivesse a sorte de nascer em “berço de ouro”, se seus pais não tivessem um sobrenome reconhecido como importante você só teria duas possibilidades de tentar ascender socialmente: através do exército (o vermelho) ou do clero (o negro).  Julien, infelizmente não tinha nenhuma vocação para o exército... Na verdade, nem para o clero, mas esse era mais acessível.

Julien, então com 18-19 anos , sente-se profundamente injustiçado (não sem razão) por não conseguir demonstrar sequer o quanto é inteligente, capaz. Ele compreende que está condenado a viver onde está simplesmente pelo fato de ser pobre.  Sua origem o limita e o condena e isso o humilha e revolta profundamente.

Pois bem, Julien consegue ser indicado pelo padre local para ser o preceptor dos três filhos do prefeito da cidade onde vive. Estando mais próximo de uma família abastada, Julien vai observando os hábitos e principalmente as maneiras de viver dos mais ricos os burgueses. O conflito de Julien é constante: ao mesmo tempo em que ele deseja muito fazer parte daquela parcela da sociedade, ele a repudia, pois enxerga entre eles toda a falsidade, a hipocrisia e o jogo de interesses. Porém, ele vai levando adiante a ideia de ascender e para isso é capaz de tudo tudo mesmo - para conseguir seu objetivo. O narrador nos mostra todo o tempo o estado psicológico dos protagonistas e, em especial, de Julien Sorel. Ele reclama todo o tempo em sua conturbada mente sente-se injustiçado, humilhado..., mas também é fingido, puxa-saco, grosseiro... O preceptor é uma espécie de professor e Sorel se utiliza desse cargo para conseguir mais livros, aprender mais com a desculpa de estar pensando no bem de seus pupilos.

 Na casa do prefeito, ele termina por se envolver com a esposa deste, a sra. De Renal (mas mesmo assim você segue em dúvida se ele ama mesmo a tal mulher ou se mais uma vez só está se utilizando disso como uma forma de vingar-se do “patrão” que o lembra o tempo todo de sua posição na casa) e depois de algumas aventuras, ele precisa sair fugido (a primeira parte do livro termina aqui, com a fuga e, particularmente, foi a minha favorita, com mais ação. Aliás, essa é outra característica da história: a ação não é o foco, a emoção dos personagens tem muito mais destaque. Portanto, em alguns momentos o relato é um tanto arrastado. Mas persista, valerá a pena!)

A segunda parte do livro começa quando Julien tem a oportunidade de  finalmente ir para Paris, para um mosteiro estudar. Julien é muito inteligente, esperto. Domina latim e já decorou toda a bíblia, fazendo exibições ao desafiar as pessoas a dizerem um versículo para que ele não só o complete como teça comentários sobre ele. Pois bem, valendo-se disso ele consegue ser indicado ao cargo de secretário do Marquês de La Mole. Mais uma vez, Julien vai lá fazer um papel subserviente que o incomoda profundamente, mas por outro lado é uma maneira de estar em contato como os ricos e famosos e de ir fazendo aos poucos seu próprio nome. Com seus conflitos pessoais intensos, outra vez Julien se mete em encrenca dessa vez, com a srta. De La Mole, filha do Marquês. Mas dessa vez a coisa não termina tão comicamente como o anterior.

As cem páginas finais do livro há vários acontecimentos (aumenta a ação) já que você fica ali vendo desenrolar acontecimentos que se direcionam para um desfecho que eu achei triste, mas muito simbólico. Julien está com 23 anos, viveu muita coisa e parece estar um pouco desiludido, desesperançoso mesmo.








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Minha opinião RECHEADA DE SpOIler:

É difícil defender Julien. Ele não se encaixa nem como herói nem como anti-heroi. Ele não é legal ou simpático, mas é muito mais humano do que se espera de um protagonista. Ele é intenso, ambíguo. Mas a gente compreende sua situação, afinal ele é pobre e inteligente e se sente injustiçado pela maneira como a sociedade poda todas as oportunidades ainda mais compreensível em nosso país, que as coisas parecem querer começar a mudar de pouco tempo para cá.... Ele quer ascender, reconhece suas qualidades, sabe que não precisa ser apenas um carpinteiro, que pode ser muito mais do que isso mas ao mesmo tempo acha humilhante ter que se encaixar nesse jogo de hipocrisia que é a sociedade. Julien quer muito mais prestígio do que dinheiro é interessante observar isso, mas sabe que tem que se encaixar e submeter a coisas que talvez não sejam muito legais.

Não é imprescindível, mas é interessante que você tenha uma noção da época histórica, já que Stendhal mescla acontecimentos reais com seus personagens e estes são profundamente marcados por tais acontecimentos, para não perder nada.

Um livro interessante, um livro que já termina merecendo uma releitura já que ele é muito cheio de detalhes, de nuances. Em alguns momentos a narrativa é um tanto arrastada, sem grandes acontecimentos apenas diálogos e descrições de emoções. Eu acredito que a leitura de clássicos mereça um pouco mais de atenção, já que nos tira de nossa zona de conforto ao enfrentar escritos do século passado, por exemplo.  A falta de sangue nobre em Julien provoca nele uma espécie de complexo de vira-lata ele sempre se sente humilhado, perseguido. Às vezes é só impressão dele, em outros momentos nem tanto. Mas ele é muito difícil: às vezes pedante, às vezes exibicionista. Às vezes chora com demonstrações de carinho, porque não está habituado a isso e nesses momentos você sente certa pena dele. Seu final é trágico, mas acho que foi merecido não como punição ou castigo, mas como uma representação de toda uma parte da sociedade que era Julien: todos os que ficam restritos a serem sempre os pobres, os subjugados, os “menos” de uma sociedade só porque não possuíam nome ou dinheiro, independente de terem ou não qualidades acima disso.


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Não é um livro fácil, mas é um excelente livro. Esforce-se por ele, serás recompensado.


Boa leitura!📚


"Um homem dotado de uma alma nobre, generosa

 e que teria sido seu amigo, mas que mora a cem

 léguas, julga-o de acordo com a opinião pública

 de sua cidade, a qual é determinada pelos
 tolos que

 o acaso fez nascer nobre, ricos e comedidos. Ai

 de quem se distingue!"


                                                                (pág. 161)




"O que eles mais temem deve ser essa 

categoria de homens de fibra que, depois de 

receber uma boa educação, não tem 

dinheiro 

suficiente para iniciar carreira. O que seria

 desses nobres se tivéssemos a oportunidade

 de combatê-los com armas iguais!"


pág. 104





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