29º LIVRO DO ANO

"Casa de praia com piscina", Herman Koch




O autor holandês também escreveu "O jantar", um Thriller muito bem arquitetado com um enredo misterioso e que passa por um plot twist que só torna a leitura ainda melhor. Talvez escrever um livro de estreia que tenha chamado a atenção por sua qualidade não seja assim tão legal, já que a cobrança e a expectativa do público podem frustrar o sucessor. Acredito que tenha sido isso o que aconteceu com "Casa de praia com piscina".

Este livro tem um desenrolar bem mais lento do que o livro de estreia. O enredo é interessante, mas os protagonistas são irritantemente chatos, machistas e nem um pouco éticos. Li muitas críticas dizendo que "não acontece nada" em suas 300 e tantas páginas, mas não é bem assim. Ao optar por uma narrativa com muitas descrições e lembranças, para muitas pessoas o livro pode se tornar chato. O desfecho é um pouco previsível, mesmo com o autor jogando algumas "cortinas de fumaça" . Mas não é um livro ruim. É uma forma diferente de se contar uma história, uma maneira mais psicológica, emocional.

Vamos ao enredo:

Marc Schlosser é um médico clínico geral que se especializou em atender os ricos e famosos. Ele gosta de demonstrar interesse nos pacientes, mas no fundo sabe que está apenas ouvindo um falatório sem fim de pessoas que tem outros tipos de "doenças" - falta de atenção, exibicionismo, quase sempre nada físico... Para tudo isso, Marc tem uma maneira muito especial de lidar: reserva 20 minutos para cada paciente, faz o exame clínico só para que o paciente sinta que está sendo levado a sério. Ele mesmo diz que nos 4 primeiros minutos já sabe o que está acontecendo, qual é o "problema" - mas os outros 16 garantem sua credibilidade, são a base de seu sucesso...  

Porém, logo no início do livro sabemos que algo muito grave aconteceu. Um de seus pacientes, um famoso ator, morreu e ele está sendo acusado de negligência. Mais do que isso, a esposa do referido ator o acusa de assassinato mesmo. O famoso Ralph Meier, em cartaz no teatro, em cartaz na TV com uma das séries mais caras já exibidas - e ainda no ar, morreu. E seu médico pode ser o culpado.

O que torna o desenrolar da história mais lento é justamente a opção do autor em descrever o que aconteceu até chegarmos ali usando como narrador o próprio Marc. E posso adiantar que ninguém é santo nessa história (esse é outro problema: é tanta gente sem caráter junta que fica difícil  definir o que você está sentindo pelos personagens. Não tive empatia por ninguém ali. Todos - especialmente os masculinos - muito dissimulados, nojentos, machistas e preconceituosos). Mesmo assim, eu queria entender a situação toda.

Não dá para esmiuçar muito sem soltar spoliers que estragariam sua experiência de leitura. Mas, de maneira resumida, o que vamos descobrindo é que : o tal ator Ralph um dia vai procurar o doutor Marc porque ouviu de outras referências que ele receita certos "medicamentos" que outros médicos fazem "corpo mole" para receitar. O cara é um poço de simpatia, mas não de um modo legal: ele é falastrão demais, expansivo em excesso, sedutor em excesso... Tudo nele é excessivo! Mas Marc é um tipo meio deslumbrado. O fato de lidar com "artistas" e ser convidado para lançamentos e estreias faz com que ele se sinta meio que parte deste mundo. Ele também me pareceu um tanto frustrado por não ser um "especialista", ser apenas clínico, uma espécie de "médico de família". Ou seja, outro cara difícil de simpatizar. E é dessa forma que ele se aproxima - ou melhor, que as famílias de ambos se aproximam. Um convite por parte de Ralph para as férias de verão e uma série de segundas intenções de ambos os lados fazem o "encontro" das duas famílias - Marc, esposa e duas filhas e Ralph, esposa e dois filhos - numa casa de praia com piscina. 

Esse período que  passam ali é que a história do livro ganha força e que você se aprofunda na personalidade de todos. Como eu disse, eu detestei os personagens masculinos com seus comentários machistas e com atitudes idem... Mas isso faz parte do contexto do livro, ou seja, era encarar isso para poder entender onde chegaria, entender como as coisas estavam como estavam.

Não é um livro ruim, é uma história com um toque muito mais psicológico, ou seja, são muitas descrições, muitos diálogos, muitas lembranças do protagonista. Alguns leitores não gostam muito deste tipo de história, eu particularmente gosto. Envolve  também a questão das escolhas que fazemos, como por vezes um objetivo mesquinho pode gerar consequências que afetarão até os inocentes; a questão da ética profissional em qualquer profissão; o deslumbramento por um mundo inatingível que é tão comum nas gerações atuais... Eu acredito que o livro traz sim observações interessantes que podem gerar reflexões bem bacanas sobre nosso cotidiano e sobre a história em si. Os personagens são bem contextualizados dentro de suas imperfeições tão humanas. Eu entendi as intenções de Marc, o que o moveu a tomar a decisão que tomou, mas não consigo enxergá-la como opção. Quando o ser humano tem um poder, qualquer que seja, ele se torna potencialmente perigoso. O livro é sobre tudo isso. Portanto, para mim, não poderia ser ruim.

Boa Leitura!📚


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