31º LIVRO DO ANO

Dois Irmãos, Milton Hatoum
A versão que li em meu Kindle infelizmente está com a capa da minissérie 😠(agora deu, não bastasse ter que brigar por conta de livros com capas de filmes, agora até minissérie da Globo na capa do livro. Decepcionante...😡)

Outras versões:




























Milton Hatoum é um autor brasileiro, descendente de libaneses e nascido em Manaus. Teve seu début como autor com a obra “Relato de um certo Oriente”, em 1989. Esta minha leitura foi lançada em 2000 e ganhou certa atenção por conta de sua adaptação no início do ano como uma minissérie da Rede Globo com Cauã Raymond como protagonista. Além desses dois, o autor também escreveu “Cinzas do Norte” em 2005 e “ Órfãos do Eldorado” em 2008. O autor mescla a ficção com suas lembranças de uma Manaus pouco conhecida da maioria dos brasileiros... Além dos livros já lançados, há outro em vias de ser lançado e vários contos publicados. Há também uma adaptação para quadrinhos feita pelos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá que manteve o nome da obra. Eu não tive contato com nenhuma das adaptações, apenas o livro.

Os primeiros capítulos mostram fatos que só terão sentido no decorrer da história, dramas familiares que só podem ser compreendidos com a leitura. Pode parecer fácil, dedutível que seja a clássica história de irmão bom e irmão ruim. Não é tão simples assim, caro leitor...

“Dois Irmãos” conta a história de uma família libanesa estabelecida em Manaus. O patriarca Galib possuía um comércio, uma espécie de “secos e molhados” na cidade que tocava com o auxílio de sua filha Zana, descrita com uma beleza de atrair atenção de todos. Porém, quem ganha o coração da beldade é Halim, outro descendente de libaneses que acaba se casando com a moçoila. Com a morte do patriarca, o casal herda o negócio e segue tocando-o, a revelia da constante tristeza e lamento de Zana. Vale ressaltar que Zana e Halim são apaixonados, tem uma aura de sensualidade em volta deles todo o tempo – muito bonito de se imaginar. Mas a morte do pai deixa Zana chorosa, lamentando, guardando um luto que parece não ter fim para Halim. Ela decide - ela decide sozinha, sem nenhum tipo de consulta prévia - que o casal terá três filhos. Nem mais, nem menos.

Halim não quer. Halim gosta da liberdade juvenil gozada por eles, se amar na hora e lugar que tiverem vontade sem se preocupar em serem surpreendidos. Mas, mais uma vez, Zana tem seus desejos atendidos pelo apaixonado marido. Nesse meio tempo, uma índia catequizada vem morar com eles, Domingas – ser uma empregada, na verdade - como parece que era comum nesse tempo – em torno de 1940 – e prática que ainda deve ser bem difundida em boa parte de nosso país. Enfim, nascem os gêmeos Yaqub e Omar, este último chamado de Caçula. Omar nasceu mais fraquinho, teve um problema respiratório que quase o  levou à morte e sua mãe à loucura ao imaginar que o menino pudesse morrer. Sem perceber, sua excessiva atenção e cuidado com o Caçula que perduram por toda a vida geram muita amargura e ressentimento em Yaqub – e mesmo em Halim, que sente ciúme da dedicação da esposa.

Pois bem, depois dos meninos Zana ainda teve Rânia. Halim, que nem pensava em ter filhos repentinamente se vê com três. Mas, desde sempre, o maior incômodo é a dedicação constante de Zana por Omar que beira a obsessão. Nota-se que é uma família com sérios problemas de relacionamento e disfuncionalidade, pois nenhum deles estava pronto para criar essas crianças...

Conforme os gêmeos crescem, a distância entre os dois vai ficando cada vez maior e mais evidente. Não há aproximação, companheirismo, amor entre eles. Sempre brigando, sempre discutindo, sempre trocando socos – se agredindo mesmo, de se machucarem! O que pode ser considerado o rompimento definitivo dos gêmeos é a atenção que uma vizinha – Lívia - dá a Yaqub. Aos treze anos, por conta de ciúmes, Omar agride Yaqub com um pedaço de vidro, fazendo um corte em forma de meia-lua no rosto do mais velho, uma cicatriz que ficará para sempre - e muito simbólica na relação desses dois. Prevendo que as coisas poderiam piorar e a fim de proteger seus rebentos (???), Zana convence Halim a mandar Yaqub para o Líbano. Por que essa ideia tão descabida, mandar o filho para tão longe enquanto está rolando a Guerra???

São cinco anos de separação, mas quando Yaqub volta homem feito, pouco fala sobre o que viu e viveu no Líbano. Aliás, pouco fala sobre qualquer coisa. Especialmente com o irmão, com o qual evita qualquer contato. Ou seja, a relação dos dois praticamente inexiste. 

A partir daí, vamos acompanhar o estabelecimento de Yaqub no Brasil, destacando-se como um homem taciturno e muito inteligente, que se destaca desde sempre nos estudos mas que é uma figura obscura, que nunca sabemos o que está pensando e o mimado (e na minha opinião irritante) Omar, que não trabalha, não estuda e vive apenas para farrear e ser idolatrado por todAs na casa. Para Halim, Omar é um peso morto, uma vergonha. Zana o protege de tudo e todos, o mima como se fosse um bebê e conta coma a ajuda de Domingas, a índia-empregada e da irmã.

Mas não pense que qualquer um dos dois merece ser defendido. Pelo contrário, aparentemente, eles são mais iguais do que gostariam...

Só vamos descobrir quem é o narrador quase no final do livro, mas é muito bem colocada a revelação, muito bem construído esse personagem inteligente e observador. O livro tem muitas sutilezas, muitas situações nas quais você entende que está lidando com uma família que vive em seu próprio universo, como se o resto do mundo não existisse. Nesse sentido, achei a leitura interessantemente incômoda, já que cada vez que uma história consegue mexer com seus conceitos acredito que ela esteja fazendo o que é certo – te fazendo repensar ou ao menos analisar outros ângulos de uma mesma atitude. A descrição de Manaus com suas peculiaridades também é muito interessante, pois nos afasta do eixo Rio-São Paulo, mostrando como uma cidade em plena selva pode sim se estabelecer e ter muito movimento urbano. 

O protecionismo da mãe com o caçula também chega a ser irritante. A relação de Rânia com os irmãos é , no mínimo, peculiar. Domingas parece ser a mais equilibrada ali...

 Zana cobra  do marido mais atenção e cuidado com Omar, mas ele se esquiva pois o filho é um peso morto para ele, uma vergonha. Mas ela exige especialmente a mesma dedicação de Domingas e de Rânia para com o rapaz. Omar chega bêbado da farra e é banhado, colocado na rede, recebe comida quando acorda, tem dinheiro cedido pela mãe ou pela irmã... Enquanto Yaqub procura fugir desse ambiente, estabelecendo-se em São Paulo e firmando-se como engenheiro de primeira linha, ganhando fama e dinheiro. Mas a  cada visita à Manaus, a coisa entre os dois só piora. E vemos que mesmo estando longe da família, algumas coisas não podem ser mudadas...

São personagens e situações muito bem concebidas, muito críveis ao ponto de serem desagradáveis. Tem muito ressentimento rolando, muita dor mesmo entre toda essa família. Todo mundo tem alguma coisa para se queixar – e com razão. Mas todos também tem culpa no cartório... Mas é uma leitura muito interessante, difícil de parar, emocionante em seu final... Vale a pena sim, mas não será fácil. Prepare-se para fortes emoções.


📚📚📚📚BOA LEITURA!!!📚📚📚📚


"Os filhos haviam se intrometido na vida de Halim, e ele nunca se conformou com isso."

"Cedo ou tarde, o tempo e o acaso acabam por alcançar a todos."



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