32º LIVRO DO ANO

“No ar rarefeito, Jon Krakauer

Conheci a escrita de Jon Krakauer através do maravilhoso “Na natureza selvagem”, que aliás é um dos livros mais incríveis que já li. Depois, li “Missoula”, que é um relato perturbador sobre a questão do estupro nas universidades – outra leitura marcante. Portanto, não esperava menos desta leitura.

Jon Krakauer é um jornalista norte-americano nascido em 1954 que escreve para diversos jornais e revistas. Praticante de montanhismo/ alpinismo, em 1996 foi até o Nepal para fazer sua escalada no Everest. Esse livro é sobre essa aventura – e a maneira como ela acabou (mal) para o autor.

Antes de tudo, devo deixar claro que não entende nada de alpinismo, montanhismo ou rapel. O que eu sei é o que já vi em filmes ou reportagens na TV, não dominando nenhum termo técnico. Portanto, já peço desculpas antecipadas caso eu fale alguma bobagem ou troque algum termo eventualmente.

Confesso que esse tipo de aventura não faz minha cabeça de jeito nenhum. Eu não entendo - apesar de respeitar – como uma pessoa pode se colocar em risco dessa forma – ou de qualquer outra. Tudo o que envolva altura, velocidade ou água me assusta! Por isso, é fácil imaginar os momentos de agonia que passei durante essa leitura...

“As pessoas que não praticam alpinismo – vale

 dizer, a grande maioria da humanidade –

 costumam achar que esse é um esporte 

irresponsável, que se trata de uma busca dionisíaca

 de toda as emoções que uma escalada possa 

fornecer.”

Pág. 143



O livro narra a empreitada patrocinada pela revista OutSide levando Jon até o Nepal para “fazer” o Everest. Everest, minha gente, com seus 8.848 metros acima do nível do mar! Ele faria uma reportagem a respeito de todo o dinheiro envolvido nesse tipo de turismo de aventura e a influência disso na vida local, como estaria modificando as imediações da montanha (taxas, estadias, licenças etc.)  Imagine o frio causticante, imagine a falta de ar..... Imagine escalar tudo isso!!! Requer um enorme preparo físico de meses de antecedência – e isso não dá nenhuma garantia, já que ninguém pode controlar a natureza local e nem mesmo a sua própria natureza – afinal, como saber de qual forma o corpo vai reagir a falta de oxigênio? Um desmaio, um edema pulmonar ou cerebral, uma cegueira temporária...enfim.



“O alpinismo costuma atrair homens e mulheres 

que não abandonam seu objetivo com facilidade”


Pág. 184 

Jon Krakauer juntou-se ao grupo do renomado alpinista Rob Hall, conhecido por já ter escalado a montanha outras vezes e de servir como guia para aventureiros dispostos a desembolsar um bom dinheiro para tê-lo executando esse papel, conhecido por sua competência e cuidado com suas equipes.

                                                         Rob Hall

Jon inicia o livro narrando todos os preparativos, descreve as pessoas que encontrou lá – todas muito diferentes entre si, com biografias tão opostas como executivos e aventureiros, por exemplo. O árduo caminho antes mesmo de chegar aos pés da imensa montanha, cheio de percalços desde a chegada ao país até as estadias e os problemas com a culinária bem diferenciada para a maioria. É uma aventura que requer muita convicção para encará-la, já que são praticamente meses até chegar o grande dia – que, como eu disse, pode ou não acontecer – e a alegria da chegada ao topo pode ser ofuscada pela preocupação em saber da descida. Um ponto que achei muito interessante trata-se de contar que os alpinistas necessitam do auxílio essencial dos sherpas, o povo que vive aos pés da montanha em aldeias, gente muito ligada a espiritualidade, nascidos e criados ali e que, portanto, não apresentam as dificuldades de aclimatação pela qual passam os turistas. São eles que trabalham diretamente com os alpinistas renomados, fazendo a maior parte do trabalho pesado sem o qual seria impossível a escalada.  Ou seja, um nome se destaca e é remunerado de forma excepcional, mas se não fossem os sherpas para colocar as cordas, fixa-las ao longo do trajeto, de acampamento em acampamento ao longo da imensa montanha (há várias bases antes do topo em si, que servem para abrigo, alimentação, aclimatação e descanso ao longo da subida) a subida não existiria com o mínimo de segurança.

                                            Os sherpas em ação.

Jon nos conta ao longo do livro como foi a subida, os muitos percalços e dificuldades que cada um deles foi passando, muitas vezes quase desistindo, outras vezes desistindo mesmo. Jon conseguiu chegar ao topo, mesmo em um dia de “grande congestionamento”, já que várias equipes buscavam atingir o cume num mesmo dia. Como ele foi um dos primeiros a chegar, logo se preocupou em descer... 

“Chegar ao topo do Everest supostamente 

desencadeia uma onda imensa de alegria; apesar

 de todos os pesares, eu atingira uma meta 

cobiçada desde a infância. Porém o topo era, na

 verdade, apenas metade do caminho. Qualquer

 impulso de autocongratulação foi eliminado de 

imediato pela apreensão horrenda que eu sentia 

diante da longa e perigosa descida que tinha pela 

frente.”


Pág. 188

O problema foi a tempestade que pegou 19 alpinistas antes de estarem em segurança, mantendo-os presos numa luta pela vida sob um frio de -73° C. Óbvio, muitos não sobreviveram. Rememorar e escrever esse acontecimento foi um exercício de aceitação para Jon Krakauer, que ainda se martiriza por um determinado momento lá no alto , ainda se culpa.

 “Nós tínhamos conseguido. Nós escalamos o Everest. Tinha sido meio confuso lá em cima, por uns momentos, mas no fim tudo acabou dando certo.

Ainda seriam necessárias muitas horas até que eu

 ficasse sabendo que, na verdade, nada acabou

 dando certo – que dezenove homens e mulheres

 estavam presos na montanha, sob a tempestade

, numa luta desesperada para salvar suas vidas.”


Pág. 200

Ele conta sua versão dos fatos, mas também conversou com outras pessoas que estiveram lá. Mas é claro que, em condições normais cada um já tem uma versão do que aconteceu, imagine ali em cima, em meio a uma tempestade, com pouco oxigênio e muito frio...

É uma narrativa interessante, mas muito sufocante nos momentos finais. Um livro que faz você pensar sobre tudo o que aconteceu ali, o que cada um deles deve ter passado. A escrita do autor é impecável, assim como é compreensível sua dor.

O filme “Everest” (2015) narra essa que foi até então a maior tragédia na grande montanha, mas segundo seu produtor não foi baseado em um único livro, já que há as versões de outros sobreviventes. Jon Krakauer não concordou com a narrativa do filme.

Fica a dica de um livro muito bem escrito, muito bem detalhado e que vai mexer com suas emoções.

BOA LEITURA!📚📚📚

A foto com a equipe de 1996 da "Adventures Consultants"

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