30º LIVRO DO ANO

“Nada a invejar Vidas comuns na Coreia do Norte”, Barbara Demick


O curioso título desse livro remete a uma música muito comum na Coreia que diz que o povo nada tem a invejar quanto ao resto do mundo:

“Uri Abogi, nosso pai, nada temos a invejar no 

mundo

Nossa casa é envolvida no abraço do Partido dos

 Trabalhadores

Somos todos irmãos e irmãs.

Mesmo que um mar de fogo venha em nossa 

direção, meigas crianças não precisam ter medo.

Nosso pai está aqui.

Nada temos a invejar. ”

A jornalista Barbara Demick mudou-se para Seul em 2001 e trabalhou como correspondente do jornal “Los Angeles Times”. Nesse período de sua vida, interessou-se por tentar reconstruir a vida dos cidadãos norte-coreanos, já que estamos falando de um dos mais fechados - se não O mais fechado - países do mundo. Durante sete anos, Barbara entrevistou norte-coreanos que escaparam para a China e Coreia do Sul tentando compreender seu cotidiano - "desertores do regime", segundo o governo norte-coreano, refugiados, segundo a Coreia do Sul. Esta é a minha segunda leitura sobre o país - a primeira você pode conferir aqui - e posso afirmar que  continua sendo algo aterrador de saber que ainda existe.

Barbara falou com algumas pessoas e suas histórias chocantes é que compõe a narrativa do livro. Veja bem, o que essas pessoas contam compõe, na minha humilde opinião, o melhor e mais chocante exemplo do que pode ser uma ditadura. Tais pessoas viveram sob a ditadura de Kim Il- Sung (1912- 94) e posteriormente seu filho, Kim Jong-il (1942- 2011). Atualmente, o governante é Kim Jong- Un. A família Kim governa a Coreia desde 1948, data da divisão do país. Com a derrota do Japão, o território ficou dividido entre estadunidenses e soviéticos.  Como parte do acordo, houve a divisão do país a esmo, simplesmente passando um “traço” por cima do mapa. A partir daí a vida do lado norte jamais foi a mesma. Houve a Guerra da Coreia em 1950, quando a Coreia do Norte invadiu o lado sul com o poderio bélico patrocinado pela então URSS. Após uma considerável baixa do lado sul e a intervenção do Conselho de Segurança da ONU, houve a assinatura de um armistício em 1953 ou seja, nunca foi fechado um tratado de paz.  De lá para cá já aconteceram aproximações, mas atualmente a situação é delicada. Enquanto na Coreia do Norte eles seguem fazendo testes nucleares e trabalhando no enriquecimento de urânio, o atual presidente dos Estados Unidos com seu lema “America great again” deixa o mundo apreensivo com seu discurso de ódio e repressão. Enfim, as coisas estão  complicadas...


Com isso, saber o que realmente se passa no cotidiano da autodenominada República Democrática da Coreia é quase impossível. O livro conta a história de pessoas que viveram o período de grande crise que aconteceu no início da década de 1990. Após a queda do muro de Berlim e a derrocada do Socialismo na União Soviética, a coisa só foi degringolando no país sem os subsídios garantidos, chegando ao grande período de fome que perdurou por quase toda a década. As histórias dessas pessoas são de partir o coração, revoltar até onde você pode sentir-se revoltado...

Enfim.... Tudo é um grande jogo de interesses. Só minha revolta não basta para salvar aquela população de tamanha prisão. É preciso muito mais.

O que se sabe de fato é que na Coreia do Norte o culto à família Kim acontece desde sempre. Eles são o que para o ocidente corresponderia a Jesus e toda a ode de santos cristãos. Os nascimentos dos líderes são ligados a fenômenos da natureza aparecimento de um arco-íris, uma estrela cadente e assim por diante. O “pai da nação” que estiver ocupando o cargo de "líder supremo" tem supostas proezas cantadas e escritas em livros infantis ou não, ainda que sejam reais ou completamente inverossímeis. Por exemplo, segundo se estuda Kim Jong-il praticamente destruiu o exército japonês sozinho segundo a história que vem sendo contada a há gerações. Ele foi um herói da resistência, lutando dia e noite contra os bastardos japoneses, mesmo que se saiba que na época ele era criança demais para fazê-lo... 

Esse é outro detalhe chocante: a questão da lavagem cerebral, que começa pela filosofia Juche criada por Kim Jong-il ( na verdade apenas uma mistura de confucionismo e outras filosofias orientais, sempre direcionando ao trabalho coletivo, vida em comunidade e aceitação) e pelas músicas, histórias repetidas a exaustão pelo povo.  

Estes são alguns exemplos de comandas de atividades de matemática em livros infantis (pág. 161):

“Oito garotos e nove garotas estão cantando hinos em louvor a Kim Il-Sung. Quantas crianças estão cantando, no total? ”

“Uma garota está atuando como mensageira para nossas tropas durante a guerra contra a ocupação japonesa. Ela leva mensagens numa cesta que contém cinco maçãs, mas é detida numa barreira por um soldado japonês. Ele rouba duas maçãs dela. Quantas restam? ”

“Três soldados do Exército do Povo Coreano mataram trinta soldados americanos. Quantos soldados americanos cada um deles matou, se todos mataram um número igual de soldados inimigos? ”

Veja bem, crianças leem isso.

Os rádios tocam apenas hinos “de louvor” ao regime e ao líder supremo, as notícias só contam aquilo que seja interessante ao regime, sendo adaptadas conforme a necessidade. Existem (existiam?) pessoas dentro dos bairros que eram designadas para denunciar qualquer um que dissesse ou insinuasse qualquer coisa contra a família Kim ou o regime. Os entrevistados contam que, na época que ainda estava na Coreia, todas as casas eram obrigadas a ter dois retratos do pai e do filho Kim em lugar de destaque na parede e, além disso, havia um pano próprio para a limpeza dos referidos retratos. Ah, mais um detalhe: havia uma espécie de “polícia dos bons costumes” encarregada entre outras coisas de verificar se os retratos estavam adequadamente higienizados!!!

Eu não consigo achar normal. Não consigo entender como uma lavagem cerebral desse nível vem sendo realizada há tantos anos e nada é feito para libertar esse povo!

Como eu disse, os entrevistados vão falar bastante sobre o grande período de fome vivenciado em toda a década de 1990, já que alguns são idosos e viveram o apogeu e a queda da esperança na vida na Coreia, outros passaram a adolescência vendo pessoas morrendo de fome ao seu redor - enquanto eles mesmos buscavam sobreviver (o livro foi escrito em 2009). Histórias tristes de gente pegando mato grama mesmo- para tentar cozinhar e comer. Gente morrendo pouco a pouco, gente doente e sem remédio, serviços essenciais faltando transporte, água, luz elétrica só para citar alguns exemplos. E com tudo isso acontecendo, o “noticiário” seguia enaltecendo o “grande pai” que cuidava de seu povo. Revoltante!

O livro foi escrito em 2009, mas acho que pouca coisa mudou por lá. A repressão é muito grande, é quase impossível imaginar uma resistência dentro do país. Há estágios de castigos nas prisões que vão desde a solitária até trabalhos forçados. Imagine isso numa época de fome: muitas mortes. Você poderia ser preso por falar algo mal interpretado, por vender comida, por sorrir ou demonstrar sarcasmo (???) durante uma cerimônia. As pessoas sussurram em casa mesmo quando não estão falando qualquer coisa contra o governo. E se seu vizinho não gostar de você por algum motivo e te denunciar? Não se vive na Coreia do Norte se existe. Simples assim.

Os entrevistados – como por exemplo os jovens namorados Jun- sang e Mi-ran, a sra. Song Hee- Suk, uma outrora entusiasta apoiadora do regime de Kim Il-Sung tem sempre uma história triste para contar. Quase todos presenciaram mortes na família sem nenhum tipo de auxílio médico mortes por falta de alimento, por inanição. É um livro muito rico em detalhes que chocam grandemente por sua crueldade. Uma leitura enriquecedora sobre um lugar que ninguém tem certeza do que está acontecendo só que algo muito ruim está acontecendo...


“Em 1998, estimava-se que entre 600 mil e 2

 milhões de norte- coreanos já haviam morrido em

 consequência da fome, o equivalente a cerca de

 10% da população.” (pág.194)




“Os estudantes e intelectuais norte coreanos não 

ousavam realizar protestos como seus congêneres

 em outros países comunistas. Não houve

 nenhuma 

Primavera de Praga nem Praça da Paz Celestial.

 O nível de repressão na Coreia do Norte era tão 

grande que nenhuma resistência organizada

 podia 

criar raízes. Qualquer atividade antirregime teria 

consequências terríveis para o manifestante, sua 

família nuclear e todos os seus outros parentes 

conhecidos. Sob um sistema que buscava 

expurgar 

o sangue manchado por três gerações, o castigo 

seria estendido aos pais, avós, irmãos, irmãs, 

sobrinhos, primos. ‘Uma porção de gente sentia

 que, se fosse o caso de sacrificar apenas sua 

própria vida, faria isso para se livrar daquele 

terrível regime, mas o problema é que outros

 também seriam punidos. Sua família viveria um 

inferno’, um refugiado me contou. ”

(pág. 259)

A esperança é fugir. Escapar para a China, comprando os serviços de um atravessador, driblar os guardas com suborno, contar com a sorte para não acabar negociada como esposa de algum chinês ou em algum prostíbulo, um adendo para as fugitivas femininas. O deserto de Gobi é outro perigo morrer sob temperaturas noturnas baixíssimas, já que a maioria o evita durante o dia pois ficam visíveis...

A Coreia do Sul tem todo um programa para a ressocialização dos desertores. Afinal, eles têm que reaprender a estar em sociedade. Usar um caixa eletrônico ou comprar comida, ler o que quiser, aprender inglês para entender o que está escrito nos cartazes já que a Coreia do Sul usa muitas frases/palavras/expressões em inglês no cotidiano. Ter um cotidiano! Comprar roupas. Assistir um filme qualquer filme! Imagine o choque de cultura.


Mas é possível.

Eu espero que seja possível. E que esse regime ditatorial seja um dos últimos que presenciamos em nosso século. Espero que não haja outros....

BOA LEITURA!📚



"A persistência do regime norte-coreano é um

 verdadeiro mistério para muitos observadores

 profissionais da Coreia do Norte. " (pág. 370)














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