34º LIVRO DO ANO

A primeira história do mundo”, Alberto Mussa

Minha versão no Kindle...


E essa é a capa da versão física ;-)




Como se trata de um homicídio acontecido há mais de 400 anos, e sobre o qual persistem tantas dúvidas, inconsistências e inverossimilhanças, quero propor aos leitores uma espécie de jogo, ou exercício: que dividam comigo a fascinante tarefa de reproduzir a investigação, de examinar os dados do processo, bem como outros documentos que iluminem o caráter das personagens envolvidas; imaginemos a cidade primitiva, precária e improvisada; e reentremos as origens do nosso mundo hostil e novo como se aqueles fatos seculares estivessem se desenrolando hoje, agora, sob nossos céticos olhares.




O escritor Alberto Mussa parte de uma premissa interessante para escrever o seu romance que, aliás, muito me agrada: um caso real, documentado, que vai sendo destrinchado e analisado e assim vai aparecendo uma história completa, comentada. A proposta do autor é produzir cinco histórias ligadas a um acontecimento policial ocorrido em cada século do Brasil. Assim, neste "A primeira história do mundo" estamos no Rio de Janeiro no ano de 1567 nos primeiros 100 anos desta terra brasilis...

O Rio, nesta época, tinha pouco mais de 400 habitantes, numa miscelânea de povos e crenças que ainda não tinham exatamente uma boa convivência. Eram muitas lendas, muita mitologia, muito desconhecimento dos hábitos dos indígenas maioria absoluta da terra o que tornava tudo muito perigoso: um olhar, um comentário poderia desencadear uma tragédia.

Neste livro, vamos acompanhar o desdobramento do primeiro caso de homicídio registrado no Brasil. A vítima: Francisco da Costa, serralheiro, casado com Jerônima Rodrigues foi encontrado com sete flechas em seu corpo e um oitavo ferimento correspondente a uma oitava flechada. Quem o encontrou foi o mameluco Simão Berquó. Francisco estava longe do que podemos considerar o centro da cidade. Ninguém soube precisar desde que momento do dia anterior Francisco estava desaparecido. Entre suspeitos e depoentes, foram quase 70 pessoas constantes dos autos.

Se considerarmos que a cidade ainda mal passava dos quatrocentos moradores (sem contar os índios dos aldeamentos), a morte do serralheiro envolveu cerca de 15% da população, sendo 2% os acusados do crime.


O autor traça, a partir daí, de uma reconstrução histórica não apenas do homicídio em si, mas de todo o contexto que envolvia o Rio daquela época. Ele sempre cita se a pessoa é índia ou mameluca ou português, já que isso tinha um significativo peso para a época. A questão da formação do próprio Rio  população, hábitos, costumes, habitações -  também é muito bem explanada. Achei muito interessante também como a questão indígena tão pouco trabalhada ao longo de nossa história   é colocada de maneira muito clara a exploração , a constante doutrinação, o estupro e a resistência quase heroica desse povo. Ele cita durante o livro muitas lendas interessantes que contribuem para o esclarecimento do caso como o fantástico ainda tinha um peso considerável sobre toda a população, como por exemplo a história de mulheres que viviam numa tribo exclusiva, sem homens (remetendo às lendárias Amazonas) ou de seres humanos que conseguiam virar onça. A questão da antropofagia também é bem explicada, todo o significado que esse ritual possuía de tribo para tribo.

Numa cidade onde há mais homens que mulheres não pode haver virtude.

Desde o princípio, o caso foi tratado como um crime passional. Vale destacar que não havia investigação propriamente dita, tal como conhecemos hoje - as autoridades que apuravam eram as mesmas que julgavam, além disso era o réu quem devia demonstrar sua inocência diante dos juízes. Além disso, havia poucas mulheres no lugar, inclusive havia tráfico de mulheres por conta disso. Jerônima, esposa do assassinado, já havia rejeitado um outro homem considerado bom partidoe que inclusive havia duelado por ela....

 ...mulheres de Portugal rareavam, nessa época. E as mamelucas batizadas, já meio afeitas à vida  lusitana, podendo gerar descendência de sangue mais limpo eram quase sempre preferíveis às indígenas.

Alberto então vai nos mostrando os investigados”, seus possíveis motivos para cometer o crime, mas principalmente vai cruzando informações que nos possibilitam imaginar onde estavam ou alegavam estar.  É, principalmente, uma reconstrução histórica que toma ares de romance policial já no final, uma vez que espetacularmente, Mussa vai nos conduzindo para um possível desfecho e traça um paralelo se o fizesse sob o olhar de Agatha Christie ou de Edgar Allan Poe, grandes romancistas policiais. Mas é uma leitura fantástica, especialmente se você, assim como eu, é apaixonado por história.

Partir de um fato ocorrido há mais de 400 anos e ir destrinchando pouco a pouco cada acontecimento, procurando assim compreendê-lo plenamente é uma coisa que apenas a história pode proporcionar. Um livro que fala muito sobre nossas origens, mas de forma nenhuma enfadonha. Pelo contrário. É conhecimento compartilhado da forma mais gostosa e interessante possível!

Vale cada linha!😊

Boa leitura!📚📚📚


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