35º LIVRO DO ANO

“Anna Kariênina”, Liev Tolstói

(esse texto pode conter informações que sejam consideradas

spoilers sobre o enredo)




O início desse livro é, talvez, a mais famosa abertura de todos 

os tempos:


“Todas as famílias felizes se parecem, cada família é 

infeliz à 

sua maneira. ”



O que mais se pode falar sobre Anna Kariênina?


Escrito entre 1873 e 1877, já teve várias traduções, 

adaptações e edições. Já foi adaptado para o cinema diversas 

vezes. 


Talvez eu fale aqui algo pouco dito, por incrível que pareça.... 

Mas quero utilizar esse espaço – o meu espaço – para fazer

 uma reflexão sobre a leitura de clássicos.


 As pessoas tendem a supervalorizar os chamados “livros 

clássicos” e colocar seus leitores como “superiores” aos 

demais. Ainda bem que com as atuais mudanças na maneira 

de pensar isso também está acabando e a maioria começa a 

perceber o quão ridículo é essa forma de pensamento –afinal 

cada um lê o que quiser e da maneira que achar melhor.


Eu acredito que todo leitor em algum momento da vida vai

 sentir vontade de ler um livro “clássico”. É algo natural, 

afinal de contas. Todo mundo que lê por prazer em algum

 momento vai querer experimentar um novo gênero. Eu

 sempre li muito Thriller e terror, especialmente Stephen

 King. Também já li muito “chick-lit” e YA(Young adult). 

Hoje em dia não tenho mais vontade de ler esses dois últimos gêneros – nada demais, apenas li muito e achei um pouco repetitivo... (Veja bem : eu achei. Para mim estão assim. Mas se você gosta de ler, ok, leia e até me recomende um que te surpreenda, vou adorar conhece-lo. Viu a diferença? Eu não estou dizendo que você não deve lê-lo ou que você é um leitor de “baixo nível” por curtir esse gênero literário. Não se julga leitura alheia, como não se julga religião ou opção sexual - ela é uma escolha de outra pessoa e merece respeito). Tenho experimentado outras leituras - inclusive clássicos da literatura - e estou fazendo isso no momento que eu achei adequado. Simples assim. Você também já pode ter passado por esse momento ou ainda não. O importante é não deixar que ninguém diga o que você deve fazer para parecer isso ou aquilo.


 Anna Karenina (ou Kariênina, como atualmente tem sido mais difundido) não é um livro ruim... mas também não é bom (nesse momento a polícia dos clássicos se revolta comigo😒😒😒). Como isso pode ser possível? Simples: é um livro irregular, com altos e baixos, momentos de pouca ação e muita descrição – e descrições que muitas vezes não acrescentam grande coisa ao enredo/personagem e tomam capítulos inteiros. Esses momentos se tornam cansativos... Confesso que não desisti porque participei de uma leitura em grupo, então líamos determinados capítulos por dia e conversávamos a respeito deles. Essa troca foi muito importante para mim, me fez ver outros ângulos de um mesmo acontecimento e foi muito positiva. Talvez se eu estivesse lendo sozinha, teria me desanimado (Essa foi a minha experiência de leitura. Pessoal e intransferível).

** E nesta parte volta a polícia dos clássicos  para dizer “ Você não entende de clássicos!”, ou “Não é um livro para qualquer um” ou ainda” Você não entendeu. Leia de novo.” E são esses tipos de pessoas que, acredito , afastam os demais leitores de se arriscarem a ler um clássico. Como se, apenas por ser um clássico, o livro já fosse bom e quem não gostar é porque não entende, não está pronto. Ridículo.**

Anna Kariênina é um livro que tem dois personagens principais – a própria Anna Arkadiévna, que dá nome ao romance e Konstantin Dmítrch Liévin, o Liévin (ou Kóstia em alguns momentos). São as histórias deles e das pessoas em sua volta que vão nos guiar dentro do romance. Anna é descrita como uma mulher belíssima, jovem, educada e com destaque na sociedade. É casada com Alieksei Karienin, um homem de respeito e fortuna na Rússia, 20 anos mais velho do que Anna e pai de seu único filho. Um dia, Anna conhece Vrónski, Aleksiei Kirilovitch Vrónski, um jovem e rico herdeiro militar, durante o retorno de uma viagem. Eles se apaixonam e esse será o drama dessa personagem: as escolhas que ela fará entre viver um grande amor e arcar com as consequências ou permanecer como uma senhora distinta de posição social destacada , casada e infeliz serão decisivos para o caminhar da história. 

“(...) Não sabem como ele sufocou minha alma durante oito anos, sufocou tudo o que em mim havia de vivo, não sabem que ele nem por uma vez pensou em mim como uma mulher viva, que precisa amar.(...)”

Pág. 293 (Anna sobre o marido)


Já Liévin é um jovem que opta por viver no campo e terá conflitos mais filosóficos como por exemplo a maneira como são tratados os mujiques (os camponeses, trabalhadores do campo) e sua falta de fé (diz-se que este personagem é uma espécie de alter-ego do autor, tem muitas características do próprio Tolstói) e suas dúvidas quanto a ser bom e não acreditar em Deus, ou não ser nada e não ter porque continuar a viver. São esses conflitos que vão guiando o enredo de Liévin.

Ambos não têm parentesco direto, mas suas ligações sociais vão fazer com que pessoas próximas em comum estejam sempre em contato até o encontro de ambos, já na reta final do livro.

A maneira como Tolstói escreve é peculiar. São muitos personagens, todos com primeiro nome, nome do meio e sobrenome, alguns com apelidos. E o autor vai tratá-los assim durante todo o livro.... Então, é comum no começo da história você sentir-se um pouco perdido (eu mesma costumo anotar os nomes até me acostumar com cada um deles). Isso pode representar um desafio no começo da leitura, mas você vai se acostumar se estiver disposto a leva-la adiante.


Como eu disse, é um livro bom, uma boa história, mas que se 
prolonga em alguns momentos desnecessariamente. Anna K. não é exatamente uma heroína, já que estamos tratando de uma mulher adúltera que não seria descrita de forma alguma como alguém boa num livro que foi produzido entre 1873 -1877. O livro retrata bem a posição de Anna a partir do momento em que ela faz sua escolha, como ela passa a ser um pária na sociedade, diferentemente de Vrónski. Aliás, as personagens femininas de Tolstói (essa é a minha segunda leitura do autor) costumam ser bem estereotipadas (para a nossa época), sempre frágeis, doentes, choronas e histéricas. Tanto que o começo do livro me enganou - achei que Anna seria uma mulher forte, à frente de seu tempo, mas pelo contrário: em muitos momentos ela se mostra chata, mimada, dramática... Já Liévin, mesmo cheio de conflitos, tem momentos engraçados, ternos até. Gostei de muitos diálogos e reflexões dele. Mas, confesso que tive ressalvas com os dois personagens principais, não ganharam minha total empatia.


Eu já sabia o final da história da Anna por conta de um belíssimo spoiler dado por ninguém menos que Milan Kundera quando li “ A insustentável leveza do ser”, mas isso não estragou minha experiência de leitura. Na verdade, no decorrer da história já fica meio óbvio o desfecho da personagem. O livro é dividido em oito partes, mas acaba mesmo na sétima. A oitava parte foi um pouco decepcionante, eu esperava mais explicações sobre alguns personagens secundários e seus destinos, mas foi a opção do autor... 


Esse meu texto não ficou muito bem caracterizado como uma resenha, mas foi o mais sincero que pude fazer. Seria bem mais fácil escrever o quanto é maravilhosa esta história, o quanto esse clássico mudou minha vida.... Mas, no momento que encerro esta leitura digo apenas que vale a pena ler e tirar suas próprias conclusões. Eu vou retornar um dia a Anna Kariênina, mas não será em breve. Talvez seja esse o diferencial do clássico: você fica com vontade de dar outra chance. Mas não agora...

Boa leitura!📚


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