36º LIVRO DO ANO

“Cem anos de solidão”, Gabriel Garcia Marquez


 José Arcadio Buendia e Úrsula Iguarán casaram-se e tiveram três filhos: José Arcádio, Aureliano e Amaranta. Parece algo cotidiano, banal. Mas para que isso acontecesse foi necessário um assassinato e a superação de uma cauda de porco. José Arcadio era forte e viril, Aureliano era filósofo, uma pessoa dos estudos, das letras e Amaranta era a típica filha criada para ser dona de casa e esposa.

Parece uma mais um romance comum – e é, até. Através da vida da família Buendia na fictícia Macondo perdida em algum lugar da América Latina vamos mergulhar no Realismo Fantástico  de Gabriel Garcia Marquez– termo, aliás, que o autor não gostava. Afinal, segundo ele, não havia nada de fantástico ali. Era só realismo mesmo.


Pessoalmente, cresci ouvindo histórias também bem reais para mim e minha família sobre a tia que veio buscar sua colcha favorita depois de morta ou do primo que morreu num hospital longe de casa, mas qual não foi a surpresa de meu pai ao ver que sua irmã – mãe do referido primo – já sabia da morte do rapaz antecipadamente porque ele tinha vindo avisar segundo ela, só para citar alguns exemplos. Eu cresci e muita coisa mudou no que diz respeito a minhas crenças, mas o gosto em ouvir essas histórias me marcou de tal forma que é uma sensação que trago comigo até hoje. E para quem já viveu esse tipo de situação, é muito fácil ficar à vontade em Macondo... A escrita de Gabo traduz de certa forma o nosso folclore, a nossa maneira de ver nossas tradições, nossa cultura cheia de misticismo. É uma conversa na beira do fogão, na cozinha cheia de parentes  ou no quintal, numa noite quente de um dezembro qualquer com os primos brincando ali perto com o céu coalhado de estrelas. 

É muito difícil fazer uma resenha simples desta história – apenas porque ela não é simples, apesar de ser. Estranho? Como explicar? Intenso, arrebatador – mas dizer isso limita a dimensão do livro.Não é só isso. É uma experiência pessoal, que pode te tocar ou não.  Não se assuste se você desistir da leitura – talvez apenas não seja o momento. Aliás, se você não conseguiu se apaixonar pela história, espere o momento certo, não se obrigue. Esse não é um livro para ser obrigado a ler – aliás, como não deveriam ser todos. É uma “história de vó”, sabe? Lembre-se daquele seu tio ou, como no meu caso, da sua avó que gosta de contar histórias da família, de coisas que ela viveu, pessoas que conheceu.... Você tem que estar disposto a ouvir, não é mesmo? Este livro é igual: esteja disposto a ouvi-lo, a entende-lo. Ele é incrível.

Úrsula, a matriarca Buendia, atravessa gerações vendo a vida de filhos, netos, bisnetos... Úrsula viu a casa dos Buendia ir se povoando aos poucos, primeiros com seus três filhos e depois com gente que ia chegando e ficando ou visitando... e a necessidade de ampliar o espaço, de construir mais cômodos, ocupar. Viu filhos crescendo, indo embora, filhos voltando, netos que sequer conhecia chegarem e serem bem recebidos. A casa também é importante na história, na minha opinião, e tem uma representatividade muito grande. Ela se amplia, recebe as pessoas e depois vai ficando ali, esvaziando -se... A solidão dos Buendia, apesar de serem uma família que liderou a caminhada até chegar ali, acompanhados de algumas pessoas e que viu a cidade ir se ampliando e depois também ir se esvaziando aos poucos, com a chegada do capitalismo, do “progresso” e das ambições das novas gerações. Úrsula morreu centenária – talvez a lógica diga que seria impossível viver tanto tempo, mas ali em Macondo não é apenas aceitável , é normal. Assim como o fantasma visitante ou o sangue mensageiro. Ou a criança com rabo de porco.

A história começa com o fuzilamento do coronel Aureliano Buendia e ele relembrando, tantos anos antes, de quando seu pai o levou para conhecer o gelo. É um dos inícios mais citados e mais bonitos da literatura:

"Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendia havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo."


 É uma história sensível, extremamente sensível. Mas também é cruel, é pesada. Tem incestos, tem pedofilia... Mas tem amor também. Tem crueldade, mas tem fantasia. Tem o fantasma que visita a pessoa e é uma coisa normal, tem o filho que morre e o sangue percorre o chão para chegar até a mãe – que aceita que o filho partiu, não sem sofrimento, mas com abnegação. Essa passagem me marcou muito, assim como a epidemia de insônia que assola Macondo logo nos primeiros tempos. E o medo de sofrer do mesmo mal? Aquela descrição torna tão crível a situação que você – eu, no caso – cheguei a me pegar pensando até que ponto talvez eu não vivesse aquilo... Parece louco, mas não é. E esse é o encanto da narrativa.

"Um fio de sangue escorreu por debaixo da porta, atravessou a sala, saiu à rua, continuou seu curso direto pelas calçadas desiguais, desceu escadarias e subiu parapeitos, passou ao largo da Rua dos Turcos, dobrou uma esquina à direita e outra à esquerda, girou em ângulo reto na frente da casa dos Buendia, passou por debaixo da porta fechada, atravessou a sala de visitas grudado no rodapé das paredes para não manchar as tapeçarias, continuou pela outra sala, driblou numa ampla curva a mesa da sala de jantar, avançou pela varanda das begônias e passou sem ser visto por baixo da cadeira de Amaranta, que dava uma aula de aritmética para Aureliano José, e se meteu pela despensa e apareceu na cozinha onde Úrsula se preparava para quebrar trinta e seis ovos para o pão.
 - Ave Maria Puríssima! - gritou Úrsula."

Os nomes masculinos se repetem e as personalidades deles também. Os José Arcádio serão homens conhecidos por sua masculinidade, fisicamente fortes e marcantes. Os Aurelianos serão os sonhadores, os filósofos que nasceram de olhos abertos... E são muitos! Os nomes dos homens são esses dois através das 7 gerações que acompanhamos, em alguns momentos você não tem certeza de quem se está falando, mas é normal ficar meio perdido.

"Na longa história da família, a tenaz repetição dos nomes tinha permitido que ela chegasse a conclusões que lhe pareciam definitivas. Enquanto os Aurelianos eram retraídos, mas de mentalidade lúcida, os José Arcádio eram impulsivos e empreendedores, mas estavam marcados por um destino trágico."



Não se assuste com a árvore genealógica logo no início do livro: o que está registrado ali não vai estragar em nada sua experiência de leitura.

Essa é a que está na minha edição da Record.


Essa eu recebi num grupo de leitura, está disponível na internet e achei tão bonita que coloquei no final do meu livro.😊

 E as mulheres são  fortes por serem autênticas, por carregarem o peso da família com amor, orgulho ou dor. 

Os acontecimentos se sucedem rapidamente, são várias coisas acontecendo com várias pessoas – guerra, casamentos, nascimentos, separações, chegadas e partidas. É uma dinâmica que torna tudo muito real.

A saga dos Buendia começa com um casal e termina com um casal.
Leitura maravilhosa, cheia de encantamento. Não tem como ficar indiferente. É uma história da nossa história, sulamericana, latina e intensa.

" 'As coisas têm vida própria' - apregoava o cigano com sotaque áspero -, 'É só questão de despertar suas almas'."

Este ano (2017) o livro completa 50 anos e ganhou uma linda edição comemorativa.



 Vale a pena visita-lo, seja nessa ou em qualquer outra edição. É uma história de mexer com o coração, com alguma coisa bem lá no fundo da gente, sem sequer que possamos nos dar conta. Maravilhoso💖

Nesse link do YouTube aqui, você pode ver o programa sobre o aniversário de publicação do livro, com muita coisa interessante sobre o autor e a publicação.


Vale a pena conferir.


E nesse link aqui você vai encontrar ilustrações e outros trechos desse livro maravilhoso.


Boa Leitura!📚

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