37º LIVRO DO ANO

“Senhor D.”, Alan Lightman


Alan Lightman é físico por formação. Este é o seu segundo romance lançado no Brasil, o primeiro chama-se “Os sonhos de Einstein”. Não encontrei em nenhum lugar se ele é crente ou ateu, mas posso destacar que ele foi muito inteligente ao conceber uma imagem de Deus como um ser inteligente e poderoso, mas que está enfrentando um certo tédio com um vazio infinito que o cerca. Apesar disso, Deus não está sozinho. Ele tem um casal de tios, Deva e Penelópe, que o ajudam a organizar seus pensamentos e decisões. Deva é um tipo mais emotivo e Penélope é mais ranzinza, mas os diálogos entre eles são muito engraçado e produtivamente inteligentes. Em nenhum momento se discute como chegaram ou surgiram esses seres, eles simplesmente existem.

Enfim, Deus decide começar a criar alguma coisa, preencher esse vazio. E cria galáxias, universos inteiros apenas para observar suas cores, seus formatos e como reagem à suas intervenções. Lá pelas tantas, ele resolve criar vida. Vida com alguma inteligência rudimentar. Mas claro, antes disso ele já estabeleceu leis para seus universos - a coisa de ter controle, ou certo controle. É interessante observar como cada criação sua – tempo, espaço, matéria – passa a ser parte deles, do cotidiano deles. Eles passam a contar o tempo, admirar as cores. Quando, em alguns universos, os seres inteligentes começam a produzir, eles passam a admirar a música feita por eles ou alguma coisa dita. Ou seja, não há como retornar. Está criado.

“Às vezes só notamos a ausência de uma coisa quando ela se faz presente.”

Há um ser chamado Belhor. Ninguém sabe quem o criou ou de onde vem. Apenas que seus diálogos com Deus, como um antagonista a sua altura, auxiliam tanto Deus a analisar suas atitudes e se questionar como também ter alguém a quem admirar – mas não gostar.  Cada aparição de Belhor proporciona os melhores questionamentos e debates. Quando Deus decide criar vida com inteligência, por exemplo, o único pedido de Belhor é que ele não interfira em nada – apenas deixe as coisas acontecerem... Interessante...

“Tenho pensado sobre Belhor. Sujeito estranho, esse. Por mais que eu deteste certos elementos de seu caráter, ele é o ser mais interessante que já encontrei (...) Mas Belhor, como eu, não é feito de matéria e carne. Como eu, ele se desloca tanto pelo universo material como pelo vazio e pode vivenciar não um único, mas muitos. (...) Ele é minha sombra escura. É meu companheiro antípoda. É a fina linha preta. É a voz que chama na Parede dos Mortos”.

O livro vai caminhando juntamente como os pensamentos desse Deus que não é onisciente, ele sabe das consequências que suas criações podem ter, mas não consegue prevê-las. Ele é onipotente e onipresente... É um livro muito filosófico, com passagens muito interessantes sobre a questão da causa e consequência, como por exemplo no capítulo chamado “Vozes”: Deus e Belhor começam a observar o sofrimento pelo quais passam algumas de suas criaturas. Deus então passa a tentar compreender as escolhas e o porquê delas. Belhor discorda – acha que os sofrimento faz parte delas. Em determinado momento, ele decide observar de perto uma família que perdeu o pai e que a mãe, sozinha, não está conseguindo alimentar as filhas. Ela, então, aconselha a mais velha a roubar para que não passem fome. A mais velha faz isso, mas passa a se condenar pela escolha. Belhor observa :

“Você criou um universo com mentes. Sofrer é da natureza das mentes mortais, assim como morrer é da natureza da carne. Quanto maior a inteligência, maior a capacidade de sofrer. Mas não deve se culpar por esse sofrimento. Eles causam isso a si mesmos. Não é só o medo que têm da morte. Eles são impregnados pela cobiça. E desejam fazer mal a outros. E até, ironicamente, a si mesmos. Eles matam. Assassinam. Guerreiam. Roubam. Mentem. Nações inteiras apodrecem e definham.”


Vamos acompanhando o avanço dessas criaturas - não há referência a nomes que nós tenhamos conhecimento - por exemplo, o universo escolhido por ele, ao qual ele mais se apega é chamado de Aalam - 104729. Simples assim. Deus reflete sobre a religião, sobre ouvir mas não ser ouvido. Fala de outros universos que existem e também tem vida inteligente, produzindo, mas que também não sabem da existência de outras vidas. É muito bom de ler algo assim, que não ofende ninguém, independente de religiosidade - é uma reflexão sobre a vida inteligente. Ou não...

Leitura gostosa, cheia de reflexões mas de uma maneira muito leve. São ideias sendo discutidas, mas que você nem percebe que está lendo sobre física quântica ou teoria dos múltiplos universos, ou sobre a maldade humana e sua relação com sociedade. É um livro com menos de 200 páginas, mostrando que para ser bom é necessário ter conteúdo apenas.

Vale cada linha.

Boa leitura!📚


Comentários

Postagens mais visitadas