38º LIVRO DO ANO

“Os Buddenbrook  - Decadência de uma família”, Thomas Mann



“Em 1900, ao terminar Os Buddenbrook, Thomas Mann contava apenas 25 anos de idade. Seu primeiro romance consagrou a fama do jovem escritor, concedeu-lhe o prêmio Nobel em 1929 e é, até hoje, seu livro mais popular, particularmente na Alemanha, com vendas de mais de 5 milhões de exemplares, quatro adaptações para o cinema e traduções em 42 línguas.”

(trecho do Posfácio escrito por Helmut Galle para a edição da Companhia das Letras)

Vamos acompanhar quatro gerações dessa família tipicamente burguesa, de origem humilde, que ascende pouco a pouco na sociedade alemã: os Buddenbrook. É um romance que tem um ritmo bem de novela tal qual como conhecemos em nosso país, muito visual, sempre algo está coisa acontecendo, como em qualquer família. O que o diferencia é que estamos falando de uma família cheia de responsabilidades por pertencer a uma parcela da sociedade que preza pela imagem. Apesar de estarem todos juntos, na verdade eles estão juntos por um só objetivo –  que muitas vezes sacrifica a escolha individual – que é a firma de cereais iniciada com o avô. Consequência: sofrimento, mágoa, frustrações, uma vida incompleta...

Em muitos momentos o avô será citado – no início do livro ele ainda aparece vivo, pois foi com ele que tudo teve início, mas a maior parte da história se concentra na terceira geração, os netos do velho Buddenbrook. O pai, Johan, dono da firma que está estabelecida numa cidade alemã tem quatro filhos: Thomas, Antonie, Christian e Klara. Eles, junto a sua esposa, correspondem a uma das famílias com maior destaque na cidade, com dinheiro e status social. O que Thomas Mann faz é nos mostrar, no decorrer dos anos, como as mudanças sociais e econômicas bem como os acontecimentos familiares vão colaborando para que, pouco a pouco, a vida como essa família conhece comece a desmoronar. Só que o autor nos conta isso de uma maneira muito peculiar, muito detalhada. As festas, as comemorações, as reuniões, os casamentos e sepultamentos vão, pouco a pouco, nos dando medida de como as coisas vão se transformando na vida dos envolvidos. Os lucros vão diminuindo, há prejuízos aqui e ali com um divórcio (uma “mancha” na família) ou um dote que foi prometido e deve ser pago, um empréstimo não honrado.... Pouco a pouco a conhecida fortuna e benfazeja da família vai caindo por terra. Mas, como eu disse, isso acontece pouco a pouco.

Os personagens são muito bem construídos. A maneira como Mann os descreve deixa muito claro para nós as personalidades de cada um. Thomas, o mais velho, é o natural herdeiro do império, aquele que o pai espera que dê continuidade ao que foi até então construído. Antoine, a Tony, é a típica menina mimada, a mulher que sabe que é cobiçada não apenas pela beleza, mas também pela posição na sociedade e o nome que carrega – fato, aliás, que ela gosta muito de frisar. Tony é uma personagem muito interessante, pois vai amadurecendo no decorrer da história, passando por momentos muito difíceis para ela, por escolhas muito duras, mas que ela faz sempre pensando no bem da família, não exatamente por amor, se é que me faço entender. Ela sofre, mas sempre tem em mente a importância de sua posição social, sempre tendo em mente o que a sociedade espera dela por ser quem ela é. Seu amadurecimento no decorrer da história é muito claro, assim como todas os fracassos. Já Christian é o Bon vivant, o chupim da família. Ele sim se aproveita do bom nome familiar que carrega e o utiliza para dar a famosa “carteirada”. Cheio de doenças mais imaginárias do que reais, de visões que o assustam e que ele adora contar detalhadamente nos almoços familiares, ele não trabalha, mas está sempre metido em negociações, sociedades e afins que implicam usar o dinheiro que lhe cabe na herança familiar. Contudo, ele está sempre bebendo, brindando e vivendo a noite com mulheres e farras. Já Klara é pouco citada, muito quieta, sem participação efetiva na história.

Enquanto o pai, Johan, está vivo, as coisas estão mais controladas, apesar de já termos mostras de que os lucros já não são mais os mesmos. Com a morte dele – uma passagem bem bonita e triste, por sinal, a responsabilidade de continuar esse bom nome é assumida por Thomas, como era esperado, mas fica muito claro que apesar de toda a preparação, ele sente o peso da responsabilidade de maneira muito sofrida. Ele demonstra ter muito medo de ser o causador da derrocada do império e procura sempre disfarçar seus temores, seus pensamentos e emoções. Mesmo tendo inúmeros problemas, ele tende a disfarçar, ocultar suas preocupações. Passa muito tempo sozinho, pensando, tentando achar solução para os problemas, mas já aprendeu inclusive a disfarçar suas expressões faciais para não mostrar o que se passa. Foi o personagem por quem mais simpatizei, pois o achei muito forte, muito preocupado em dar continuidade ao legado que veio de seu avô, mesmo que ele ainda tivesse que abrir mão de sua própria felicidade. 

“A existência de Thomas Buddenbrook já não era senão a de um ator- de um ator para quem a vida inteira, até as mínimas e mais triviais bagatelas, se tornou mera apresentação que, exceção feita de algumas breves horas de solidão e descanso, constantemente lhe exigia e devorava todas as forças...”
(Pág.556)

O casamento de Thomas com Gerda, outra bela mulher da sociedade, gera Johan, o Hanno. Hanno desde pequeno mostra-se um menino muito frágil, tanto física quanto emocionalmente. Tive muita pena de Hanno em vários momentos de medo, de vergonha, de se ver como uma decepção para o pai, tão forte e decidido. Me marcaram muito vários momentos dele durante a trama e seu final me tocou profundamente. Assim como o de seu pai.

Eu não conseguirei aqui dizer para você, caro leitor, muito mais dessa saga. É algo a ser lido, pois são muitos pormenores, muitos detalhes – as festas que no início do livro são tão nababescas e vão rareando, a casa que é tão rica e bem cuidada, representando um orgulho para a família, vai se desgastando, os jantares cheios de pratos e louça fina que vão acabando pouco a pouco, as visitas de pessoas influentes na vida política e social que vão diminuindo no decorrer de toda a trama – coisas que devem ser vividas por você que quer ter o prazer de ler este livro. 

Ainda há o peculiar detalhe que a história, segundo se conta, foi inspirada na vida familiar do próprio autor, que a cidade no interior da Alemanha é na verdade Lübeck, a terra natal dos Mann e que é fácil encontrar na leitura características tanto do local quanto das pessoas de lá. Diz-se que Mann levou uma reprimenda do tio, que o acusou de ser “um pássaro que emporcalhou o próprio ninho. ”

Não vou dizer que foi uma leitura fácil. A linguagem é muito acessível, tranquila de acompanhar. Fato é que, em alguns momentos, era muita informação.... Eu lia uma média de 40, 50 páginas e se insistisse percebia que já não estava aproveitando a leitura. Ainda assim, eu sabia exatamente em que ponto eu estava quando a retomava posteriormente – não é um livro chato, deduzo então, pois minha tendência é sempre ter dificuldade em guardar a história quando não estou curtindo a leitura. Gostei sim do ritmo, da maneira como a história é contada, da maneira como o autor conseguiu nos mostrar gradualmente a Ascenção e a derrocada da firma Buddenbrook e como de uma maneira muito peculiar a firma era a própria família. Elas não conseguem existir separadamente.

Excelente. Meu primeiro Mann. 😊

Boa Leitura!📚


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