39º LIVRO DO ANO

“O conto da aia”, Margaret Atwood



“Nos tempos da anarquia, era liberdade para. Agora, a vocês está sendo concedida a liberdade de.
Não a subestimem.”
(pág.36)

Falar de um livro que está fazendo sucesso é muito difícil, ainda mais nos dias atuais em que a informação é praticamente em tempo real. Uma breve busca mostra que muito – ou tudo – já foi dito. Então, aqui, vou me limitar a dar algumas breves informações sobre a história – que eu espero que só alimentem seu desejo de lê-la e deixar mais uma vez minha forte recomendação de que você leia essa distopia que, apesar de ter sido escrita em 1985 está tratando de algo tão atual que chega a assustar.

Alguma coisa aconteceu no mundo – talvez por causa das doenças sexualmente transmissíveis, talvez por causa da poluição –  pouco a pouco a taxa de natalidade despenca a níveis alarmantes, colocando em risco a existência da vida humana. Mas a vida segue como pode.... Até que...

Um dia, o Congresso dos Estados Unidos é invadido, metralhado. A Constituição é suspensa por tempo indeterminado. A pornografia começa a desaparecer. As mulheres começam a ser dispensadas de seus trabalhos, sem grandes explicações. De repente, as mulheres também não conseguem mais movimentar suas contas de bancos. Pouco a pouco, as mulheres vão perdendo seus direitos.

“Houve passeatas, é claro, muitas mulheres e alguns homens. Mas foram menores do que se teria imaginado. Creio que as pessoas estavam com medo. E quando se tornou de conhecimento público que a polícia ou o exército, ou fossem lá quem fossem, abririam fogo quase que tão logo quaisquer das passeatas começassem, as passeatas pararam.”
(pág. 215)

Ninguém tem muita certeza sobre o que está acontecendo. Foi uma Revolução? Foi algum tipo de ataque do Estado Islâmico?

De repente, mulheres começam a ser raptadas, tiradas de suas famílias, de suas casas. São realizados testes. Algumas são enviadas para uma espécie de “Centro de Doutrinação”. Essas ainda são consideradas férteis. Neste lugar, tem início uma espécie de lavagem cerebral: todo o tempo é enaltecido o “dom” de poder gerar uma vida, mas também é dito que o que existia antes era apenas falta de respeito – mulheres não se respeitavam, não respeitavam a vida, nem mesmo os homens. Abortos, estupros, tudo culpa das mulheres e suas posturas questionáveis de se “oferecerem” aos homens... Tudo poderia ter sido evitado se as mulheres se voltassem para seu mais importante papel: gerar a vida.

“Demos-lhes mais do que tiramos, disse o Comandante. Pense nas dificuldades que tinham antes. Não se lembra dos bares de solteiros, a indignidade dos encontros às cegas no colégio? O mercado da carne. Não se lembra do terrível abismo entre as que podiam conseguir um homem com facilidade e as que não podiam? Algumas delas ficavam desesperadas, passavam fome para ficar magras, enchiam os seios de silicone e mandavam cortar pedaços do nariz. Pense na infelicidade humana. “
(Pág. 260)

Essa doutrinação será destinada às aias.

Uma aia é submissa, não olha de frente para ninguém. Só fala se inquirida, caso contrário permanece muda.  Suas vestes – vestido, túnica – são vermelhas, sua toca é branca. Ela se destaca na rua, na multidão.  Tem permissão para sair uma vez por dia para fazer compras para a casa em que habita, sempre em estabelecimentos cujas fachadas possuem desenhos – não há mais letras, livros, revistas, não é permitido que mulheres leiam. Quem controla o que deve ser comprado são as Marthas – mulheres que cuidam dos afazeres domésticos, em suas vestes cinzentas. A aia não tem nome, pelo menos não o nome que costumava ter – ela pertence a um casal, uma família que deseja ter filhos. Não qualquer família – as famílias dos Comandantes, os Comandantes da República de Gilead.  Ela passa a pertencer a alguém. Nossa narradora é Offred ( “of” + Fred = pertence a Fred, nome do comandante).

Offred não esqueceu a vida que tinha antes. Ela tenta se adaptar ao novo mundo, permanecer viva. Mas não quer esquecer que sabe ler, que sabe pensar. Não quer esquecer o marido. Não quer – nem pode -  esquecer a filha. Entender ao certo o que está acontecendo. Se há a chance de resistir. Mesmo com tantas regras, tantos Olhos, tantas proibições...

Uma aia existe para procriar, por isso está numa família. Senão, estaria numa colônia impando lixo tóxico junto com outras “Não mulheres” (homossexuais, viúvas, mulheres não férteis) ou numa Casa de Jezebel (prostíbulos obscuros, existentes anonimamente). Mas nessa sociedade teocrática, não existe barriga de aluguel ou fertilização in vitro. Existe a Cerimônia...

A Cerimônia foi, para mim, uma coisa chocante, perturbadora, ainda mais em tempos em que tanto se fala da emancipação da mulher, do empoderamento feminino. Foi horrível de se ler aquela descrição. Horrível. A institucionalização de um crime.  Ou tornar sacro algo tão sujo, triste, deplorável.

Distopia maravilhosa que está sendo muito lida e indicada atualmente (está no Hype, como se diz...).  Como outras distopias traz à baila uma questão muito atual: o papel da mulher na sociedade, especialmente a maneira como a mulher é vista. A narradora vai nos dando um panorama terrível da tal República de Gilead, mesclando o que está acontecendo com suas lembranças da vida anterior ou de como chegou até ali, o que viu acontecer com outras pessoas ou de suas preocupações com as pessoas que amava e que não sabe se estão vivas ou mortas.  A narrativa é um tanto angustiante. Eu me peguei em muitos momentos com o livro fechado e digerindo passagens que eu havia terminado de ler.

Essa alternância entre passado e presente nos pensamentos da Offred, nos faz não apenas compreender os acontecimentos, mas também compartilhar com ela o estado constante de angústia em que vive. É muito interessante observar também que muita coisa que acontece ali é atual e pode ser observada em sociedades em que a mulher é vista como um ser humano menor, de baixo escalão.



Não é uma narrativa dinâmica, tem momentos em que a gente vai acompanhando a dor, os pensamentos, a tensão na vida de Offred num fluxo, mas a autora é muito feliz em sua escrita, pois deixa claro o sofrimento pelo qual aquelas mulheres – todas elas - estão passando, apesar de termos apenas a visão de um personagem. Mas a escrita é muito bonita, de uma beleza melancólica, poética. Mas também é sufocante, pois parece estar tão próxima de nós, tão possível, entende? Os devaneios de Offred são os momentos mais bonitos, mas também os mais tristes. A fragilidade da Offred é tocante, profunda.

É uma leitura que vale muito a pena, muito mesmo!

Atualmente, a história já foi adaptada para uma série do serviço de streaming Hulu que tem recebido muitos elogios. A própria Margaret Atwood acompanha a produção.

Leia. Você não vai se arrepender.

Boa leitura.📚


"Nolite te bastardes carborundorum"


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