40º LIVRO DO ANO

“Prisioneiras”, Drauzio Varella


Sou fã da escrita de Drauzio Varella! Durante muito tempo o livro “Estação Carandiru” foi meu livro de cabeceira. Já nem sei quantas vezes eu o reli. Fiquei encantada com o que ele apresentava ali: sua experiência de vida no contato quase diário com os 7.000 homens encarcerados nesse microcosmos, com suas próprias leis e rotina, tentando apenas manter-se vivo. Eram histórias que me enfeitiçavam por serem o retrato da alma humana em seu pior momento e principalmente por mostrar como um problema dessa magnitude já era negligenciado simplesmente pelo fato de que ninguém sabe o que fazer – é um problema que envolve o Código Penal ultrapassado, a mentalidade de toda a sociedade, a maneira como eles passam o tempo naquele lugar e a possibilidade certa de que eles voltarão a roubar. É uma equação muito difícil de fechar... As histórias daquele livro são uma forma de lembrar que lá estavam pessoas, seres humanos que precisam sim serem punidos mas que cabe uma discussão muito mais ampla sobre o “durante” e principalmente o “depois” da pena .  Desse autor maravilhoso li ainda “Por um fio”, livro emocionante que me faz chorar só de lembrar; “Borboletas da Alma”, crônicas do médico Drauzio sobre o corpo humano e suas curiosidades; o infantil “Nas ruas do Brás” que me lembrou as histórias de meu pai... Quanto amor que é a escrita desse homem!!

E aí veio “Carcereiros”, o segundo livro da trilogia sobre o sistema carcerário brasileiro, que traz a visão dos funcionários que estão mais próximos dos detentos. O livro traz o fato do quanto se pode ser afetado por esse tipo de convivência, o quanto não estão todos encarcerados... Drauzio tem outros livros e pretendo adquirir todos pois, como eu já disse, sou fã da escrita desse autor, da maneira simples como ele apresenta conceitos e ideias, emoções e histórias.

Encerrando a trilogia, acabei de ler “Prisioneiras”, que retrata a vida e o cotidiano da Penitenciária Feminina da Capital. Dr. Drauzio voltou a prestar serviço voluntário em um presídio depois de permanecer no Carandiru de 1989 até a implosão. Um adendo: é até bonito ver como o autor aparenta sentir saudades desse tempo. Ele relembra com muito carinho de seu convívio com os detentos e como esse convívio influenciou na pessoa que ele é hoje, aos 73 anos. Dá para notar uma certa nostalgia quando ele cita episódios da época da Casa de Detenção na Zona Norte de São Paulo.... Na verdade, Dr. Drauzio estava na Penitenciária ainda quando ela recebeu parte dos detentos transferidos do Carandiru na época da desocupação e continuou nela mesmo após transformar-se em presídio feminino.

Minha edição de "Estação Carandiru" é das antigas...💖 

Mas, voltando a “Prisioneiras”, Dr. Drauzio repete a fórmula deliciosa que já havia usado no “Estação Carandiru”: ele nos dá um panorama do espaço e da rotina, depois vai nos contando histórias que ouviu das próprias detentas. A maioria das mulheres presas estão lá por conta de tráfico, mas hoje em dia muitas já “caíram” por sequestro ou latrocínio. A presença ativa de mulheres nos mais diversos tipos de crime tem se ampliado ano a ano. É mais comum se ouvir que estavam apenas no lugar errado na hora errada. Afinal, diz-se que se há um lugar cheio de inocentes é na cadeia. Logo nas primeiras narrativas, o autor vai colocar as diferenças que ele sentiu logo de cara no trato com as mulheres, as peculiaridades - por assim dizer - do comportamento feminino.


“Todos os meses, cada mulher recebe dois rolos de papel higiênico, dois pacotes com dez absorventes íntimos, dois sabonetes, dois sabões em pedra e dois tubos de pasta de dente. Qualquer necessidade fora dessa lista corre por conta dela. Xampus, condicionadores, cremes de corpo, batons, esmaltes e outros itens essenciais aos cuidados femininos são comercializados no mercado negro. ”
(Pág. 96)


A pena da mulher é muito mais solitária do que a do homem. As filas intermináveis que vemos em frente a presídios masculinos nas vésperas dos dias de visita são praticamente inexistentes nos femininos. Em parte, porque os companheiros também estão presos, mas quase sempre porque fora as poucas mães que comparecem ninguém visita a mulher. É muito claro como a questão de gênero afeta essa “caminhada”. A mulher presa é uma “vergonha” para a família. O homem preso exige não só a visita íntima como também a fidelidade – a mulher só deixa de ser “esposa” quando ele quiser, independentemente de ser violento, agressivo ou infiel. Fora os filhos, com os quais muitas vezes elas perdem o contato por que estão espalhados com os mais diversos parentes.

Acho interessante esse tipo de leitura porque Dr. Drauzio não descreve todas como apenas vítimas da sociedade nem ameniza suas atitudes. Existem sim aquelas que escolheram a vida do crime, mas muitas não conheceram outra realidade. É triste ver que a maioria (se não todas) são oriundas de famílias muito pobres das periferias mais afastadas, com inúmeros filhos – em geral engravidaram pela primeira vez com 11 ou 12 anos e algumas chegam aos 25 com três, quatro filhos; não raro os pais desses bebês são ausentes ou desconhecidos assim como os pais delas mesmas ou pior, toda a família tem envolvimento com a vida criminosa assim como os vizinhos. É sim muito difícil escapar de uma vida fora da lei com essa realidade tão comum em seu entorno, tão carente de tanta coisa. Como ele mesmo diz, ele é médico não juiz: não cabe a ele julgar, mas sim ouvir o que algumas delas se dispõe a contar.


“A menina que engravida com quinze anos e abandona a escola para cuidar do bebê compromete seu futuro, o do filho, e empobrece os pais, obrigados a sustentar mais uma criança, já que a responsabilidade dos homens com a paternidade indesejada é próxima de zero. ”
(Pág. 51)


O livro também faz um panorama interessante sobre a questão da sexualidade na cadeia feminina e como isso pode influenciar emocionalmente no cumprimento da pena. As mulheres sentem falta não apenas do ato sexual, mas sim do companheirismo, de ter alguém ao lado para conversar e estar junto. As brigas por conta de ciúmes são violentas, não são simples discussões – quase sempre terminam em sopapos, socos quando não em desmaios ou coisa pior. Com tudo isso, as detentas tem um código de conduta a seguir e isso inclui os relacionamentos homossexuais: até denominação para cada tipo de “sapatão” existe (levando em conta se a pessoa já era homossexual fora da cadeia, se é bi ou se se tornou homossexual lá dentro e assim por diante. Interessante ver o preconceito entre elas mesmas...). Aliás, as detentas que tem uma aparência masculinizadas são muito disputadas entre elas, o que inclui envio de bilhetinhos e convites para conhecer a cela. Um mundo dentro de um mundo...

Enfim, é um livro que você não sente vontade de parar de ler, especialmente porque o dr. Drauzio sabe narrar muito bem esse cotidiano tão duro. O epílogo também é muito interessante e traz reflexões sobre a questão do aumento da criminalidade, o tráfico de drogas, o domínio do crime organizado e a violência de gênero. Drauzio escreve como um bate papo. É gostoso “conversar” com o doutor. Ele tem muito a dizer sem dar uma aula ou um sermão. É uma troca de ideias.



“Sem confiar na proteção do Estado legalmente responsável por sua segurança, o preso se junta a uma facção por três motivações principais: necessidade de sobreviver na prisão, de ascender na hierarquia do crime e de ganhar o respeito na comunidade quando regressar ao convívio social. ”
(Pág. 266)


Ótima leitura, vale a pena! E já deixo a recomendação para você que nunca leu “Estação Carandiru” e “ Carcereiros” que o faça. É uma maneira de conhecer um mundo que está tão distante de nós, mas tão próximo e analisar o que está errado não apenas dentro do sistema penitenciário brasileiro, mas na nossa sociedade como um todo.

Boa leitura! 📚

Obs.: esse ano também li “Presos que menstruam”, outro livro que traz um interessante panorama sobre a vida das mulheres presas nesse país. Falei sobre ele aqui.

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